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O start up enrustido

 João Marcelo, com apenas 23 anos, já era considerado um dos mais brilhantes profissionais de Finanças da subsidiária de um dos principais bancos do planeta. Contava com promissoras oportunidades de carreira, direito a estágio no exterior e tudo o mais. Até o dia em que cruzou com esta tal de internet…

 Antes, seu destino parecia irreversivelmente traçado no caminho da glória. No mundo executivo em que João trafegava com desprendimento precoce, sucesso para ele era sinônimo de ótimo salário e benefícios de mais que os de praxe, um plano de opção de ações com regras confusas (algo como receber uma fortuna em determinado ponto da vida profissional, em certa data a perder de vista) e um carro pago pela companhia (por que é sempre o indefectível Vectra?).

 Mas, melhor que tudo, o rapaz tinha orgulho das milhagens que acumulara em um destes programas de companhias aéreas, suficiente para dar três voltas ao mundo (seria perfeito, se não fosse o fato que todas as vezes que pensava em usá-lo, não achava vaga nos vôos…). Ah, sim, ele também adorava sentir-se amigo pessoal dos principais headhunters do mercado, que o tratavam como menino de ouro da nova geração. Volta e meia era convidado para almoçar por um destes gênios na conquista de talentos para trocar informações sobre indicações de nomes e avaliar o mercado nestes restaurantes caça-níqueis da moda, onde ver e ser visto é inversamente proporcional à qualidade da comida e do serviço (afinal, quem está interessado em comer nestes locais?)

 Até que recebeu uma ligação de seu velho amigo de infância, Carlinhos Preguiça. No momento desempregado, o velho companheiro estava se dedicando a criar um novo site – mais que isto, um portal! – que o enriqueceria em dois tempos. Era uma idéia incrível (como é que ninguém havia pensado nisto antes?) mas naquele instante absolutamente secreta. É que, explicou Carlinhos, no mundo da internet até os bites têm ouvidos… “Quando você menos espera, alguém corre na sua frente, registra e copia seu projeto e babau – lá se vai o futuro pelos ralos cibernéticos…”

 A idéia de Carlinhos Preguiça não era brilhante. Era apenas boa. Só que infelizmente ele não tinha nem capital humano nem financeiro para a execução. Na verdade, a especialidade de Carlinhos, desde garotinho, sempre fora liderar com pessoas e motiva-las à ação. Trabalhar, ele próprio, não era bem o seu forte. Primeiro, dizia, porque todo mundo sabia que envolvimento na operação é incompatível com o processo de criatividade. Segundo, porque na hora do batente dava nele aquela preguiça que justificava o seu apelido… Assim, ele arrebatou o coração e a mente não só de João Marcelo, mas também de dois outros amigos de vizinhança, um deles um web designer e outro um publicitário. Separados, dizia Carlinhos, os três novos sócios eram irresistivelmente imbatíveis em seus campos de atuação. Juntos, estavam mais que talhados para o sucesso total. Com frases como esta, cá pra nós, quem resistiria?

Mas, surgiu um problema para João Marcelo: como a idéia era, pelo menos neste momento, um sonho, como conciliar o tempo entre o atual ganha pão na multinacional e o objeto de sucesso e fama já praticamente conquistados e em suas mãos?

 A solução, como não podia deixar de ser, veio de Carlinhos Preguiça: João Marcelo precisava adotar vida dupla. De dia, às claras, continuaria a trabalhar para o banco. Na calada da noite, assumiria o papel de start-up . Você não sabe o que é start up? É o conceito de moda (pronuncia-se starapi) e significa que um cara que teve uma idéia (às vezes boa, geralmente ruim) que pode torná-lo milionário de repente. Por isto ele decide iniciar o seu negócio dot com… Quer saber o que é dot com? Bom, digamos que é ter um negócio na internet…

 João Marcelo aceitou o desafio e começou a maratona de trabalhar para viver durante o dia e trabalhar para enriquecer durante a noite. No início, quando se tratavam de reuniões de planejamento com os sócios, não enfrentava maiores problemas. Eram noites divertidas, pois o encontro com o grupo permitia fugir à rotina típica dos que vivem os monótonos trajetos emprego-cama, sem escalas. Mas, em pouco tempo, começaram as necessidades de ampliar contatos em busca de parcerias e que exigiam a invasão de horários reservados ao banco para evasões externas.

 A última coisa que João Marcelo queria era misturar os canais de sua vida profissional com os planos pessoais - até por medo de afetar sua relação empregatícia antes do tempo. Assim, ele criou uma muralha entre os dois mundos. Quando se tratava do site, dava o e-mail pessoal, o telefone e o endereço de casa. Mesmo assim, com o tempo, seus hábitos foram se modificando dentro do banco. Antes extrovertido e sociável, agora andava esquivo e estranho, falando baixinho ao telefone. Ele recebia por vezes amigos esquisitos, trajados de forma alternativa e bem diferente dos padrões sisudos da instituição. Sempre aos sussurros, olhando para os lados com cara assustada, ele começou a gerar sérias preocupações no organização. O gerente de RH, que se dizia especialista em relações com os empregados, foi acionado. Pelos sintomas observados chegou à conclusão que o menino de ouro devia estar metido com drogas ou sofria de esquizofrenia galopante, gerada talvez pelo intenso stress do trabalho.

 Mas antes que alguma medida drástica fosse adotada, a agonia chegou ao fim. O próprio João Marcelo pediu demissão. Virou empresário da net. Nunca se soube se o seu site deu certo. É que foi vendido logo a seguir para um grupo de investidores que mudou completamente o nome e a idéia original. Este grupo de investidores por sua vez foi absorvido num take over milionário por uma multinacional da internet que até hoje não colocou no ar o acervo que adquiriu.

 Quanto a João Marcelo e seus amigos, agora carregadinhos de capital próprio, criaram uma empresa incubadora de projetos para a internet. O seu principal objetivo até hoje é estimular start-ups como eles um dia foram, e que tiveram que sair do nada e comer o pão que o diabo amassou para chegar ao topo.

  No entanto, a saída de João Marcelo do emprego teve conseqüências internas no banco. O gerente imediato caiu em desgraça, pois demonstrou incapacidade para reter talentos em seus quadros funcionais. Além disso, o banco criou um fundo de investimentos com dois objetivos. O primeiro: disponibilizar dinheiro para a tal retenção de eventuais funcionários startups enrustidos. E segundo: garantir também a participação do banco nesta verdadeira mina de ouro. Afinal, nesta tal de internet, nunca se sabe o que pode acontecer…