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O rei do universo

Aos trinta anos, Guilhermino não tinha do que se queixar. Por qualquer prisma que auto-avaliasse sua trajetória profissional e pessoal, não restavam dúvidas: ele era um completo sucesso. Muito mais que isto: ele era o rei do universo! Na carreira, tudo se saíra muito bem, Começando pelo emprego certo oferecido para o sujeito certo na hora certa. Fulminante e no alvo, ele escalara como um raio todas as posições da corporação. Determinado, tinha uma missão pela frente e a perseguia custasse o custasse. Junto aos colegas, curiosamente não fizera nem amigos nem inimigos. Quando os demais se deram conta, ele já estava nos píncaros da alta direção.

Por outro lado, no amor fora um sujeito tipo sorvete de baunilha: refrescante, resolve na hora, mas por ser previsível e sem criatividade não deixa recordações... Guilhermino jamais se comprometera. Não tinha amores, mas tampouco criara desamores… Até que casou com uma colega de trabalho, destas que não chateiam nem cobram demais. O melhor atributo da esposa era atender sem muitas perguntas às suas conveniências momentâneas e aspirações futuras. Os sentimentos, nesta fase de carreira em ascensão, não faziam falta alguma...

Quando chegou aos quarenta anos, Guilhermino, o rei do universo, tampouco tinha do que se queixar. Aliás, se tentasse pensar na vida, nem conseguiria tempo para isto. Com carreira e patrimônio consolidados, vida familiar estruturada, mulher padrão e dois filhos adoráveis cujas fotos sobre a mesa de trabalho sorriam para ele, ele era admirado e invejado. Dentro dos limites de segurança em relação à honestidade de sentimentos que se pode esperar dos que vangloriam os vitoriosos, era também muito querido por todos que o cercavam.

No entanto, algo estava fora do lugar e em grande desalinho com o equilíbrio das coisas. E o pior é que Guilhermino não conseguia explicar o que acontecia. Sentia-se infeliz, angustiado, apreensivo... Um sentimento intraduzível de dever não cumprido, de fome não saciada, de clímax não atingido… O que seria aquilo?

No trabalho, se irritava com facilidade. Tinha pouca paciência com associados ou em reuniões. Desconcentrava-se com freqüência… Não suportava mais o chefe, que desrespeitava ao amplificar seus defeitos em público… A antiga e fiel secretária agora o incomodava com perguntas que pareciam mais cretinas e óbvias do que nunca, subestimando sua inteligência… Não conseguia ver futuro na empresa, que por sinal achava mal gerenciada e sem rumo… Tornara-se um crítico mordaz da administração. O seu jeito arrogante e debochado provocava crescente reação adversa dos colegas, que se sentiam menosprezados.

Em casa, as coisas não andavam diferentes. Embora se recusasse a pensar nisto, estava cansado da mulher. E até que tinha certa razão. Com o passar dos anos, a graciosa e deliciosa mocinha disputada a tapas pelos rapazes mais bem sucedidos da empresa se transformara em uma esnobe e empetecada matrona, destas que nenhum homem em sã consciência (e sem fins lucrativos) pensa no mais remoto envolvimento... Os filhos eram âncora do barco à deriva. Mas mesmo a convivência com eles não era suficiente para assegurar os laços de família.

Com o trabalho e a vida emocional - os dois pilares de sustentação do homem moderno - em franca deterioração, Guilhermino estava vivendo a chamada crise da meia idade. Era preciso agir. E renovação era a palavra chave!

Eis o que ele fez. Quanto ao trabalho, ligou para um headhunter de confiança e encomendou um emprego novo. O tal profissional protestou, com a ladainha típica dos que exercem a atividade, dizendo que não era o rabo que corria atrás do cachorro, mas vice-versa. A posição é que deveria buscar o candidato. Mas Guilhermino era determinado. Lembrou o headhunter que já havia aberto portas da empresa para processos de seleção. E que uma mão lava outra e coisa e tal. Poucos dias depois, abria-se como que por encanto uma nova frente de trabalho executivo para ele. Foi vendido pelo headhunter ao CEO da empresa em que se engajou como "o melhor candidato disponível no mercado".

Já para sair de casa, as coisas foram um pouco mais complicadas para Guilhermino que no trabalho. A esposa não gostou de ser passada para trás. Desconfiou que o marido tinha outra (Parênteses: claro que outras existiram, principalmente nas noites frias de inverno fora de casa. Mas nada sério. Foram chuvas de verão. Afinal, Guilhermino, em seu outono emocional, era daqueles que jamais colocaria o casamento em perigo por conta de paixonites de primavera…).

Quando a mulher viu que a decisão era para valer, falou o diabo. Disse que ele havia comido o filé mignon, que agora ficasse com os ossos. A que ele respondeu que não se tratavam de ossos, mas de pelancas. Ela revidou e, resposta daqui e dali, por pouco o caso não foi parar na polícia. Mas isto é uma outra história… O fato é que a separação custou muito caro para Guilhermino. Quanto aos filhos, já adolescentes, entenderam o direito do pai de perseguir a felicidade. Principalmente depois que se certificaram que as mesadas não seriam afetadas…

Livre e desimpedido (leia-se na verdade: livre do primeiro emprego, mas preso a outro; desimpedido de morar com a ex-mulher, mas prisioneiro da pensão judicial para o resto da vida…) Guilhermino sentiu-se novamente o rei do universo. Estava com o coração leve, vivendo a liberdade, da qual jurou nunca mais abrir mão.

Até que vamos reencontrá-lo aos cinqüenta anos, com a carreira consolidada na nova empresa. Um segundo casamento trouxera equilíbrio emocional. Mais dois filhos, por sua vez todos três sorrindo no porta-retratos do escritório… Só que algo voltara a andar terrivelmente errado. A antiga sensação de infelicidade voltara, só que em novos tempos… Guilhermino lembrou-se das churrascarias de beira de estrada, que trazem cartazes com os dizeres "sob nova administração". Bastava entrar numa delas para perceber que, fosse qual fosse a tal gerência, atual ou antiga, o estabelecimento tinha a mesma cara – por sinal, quase nunca boa.

Ele se sentia assim. Dera voltas e gastara energia para cair no mesmo lugar. Desalentado, percebeu que era tudo a mesma coisa. Emprego, dedicação, mulher e filhos, sentimentos… Trocara os personagens, mas o script continuava igual. Agora havia pelo menos uma diferença entre as duas etapas de vida: Guilhermino tinha mais dez anos de idade. Resignado, desistiu de lutar. Faltava tão pouco para se aposentar… e depois... Talvez, com um pouco de paciência… Quem sabe, pensou, numa nova vida, as coisas não seriam um pouco melhores?