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A RAINHA DA INGLATERRA

Quando menino, Adelino morria de vergonha do seu nome de batismo. O sobrenome, Silva Junior, tampouco ajudava. O Silva era lugar comum demais... Quanto ao Júnior, não era lá estas coisas mas... Assim, pelo processo de exclusão, ele escolheu o menos pior. Ainda na escola, livrou-se discretamente do Adelino Silva e passou a ser apenas o Júnior.

A operação, que consistiu em varrer para debaixo do tapete o verdadeiro nome, foi extremamente bem sucedida. Muitos anos depois, quase nenhum dos funcionários conseguiria adivinhar que por trás do sério, sisudo e arrogante Doutor A . S. Júnior, Presidente da poderosa multinacional, morava um ex-envergonhado Adelino Silva... Os poucos que sabiam do segredo tinham juízo suficiente para guardar a informação, evitando provocar a ira revanchista do grande chefe.

O doutor Júnior era um velho engenheiro que trabalhava à antiga, do tempo em que globalização ainda não havia sido inventada. Naquela época, tudo era mais fácil e prático para os executivos. Em troca de bons resultados financeiros no final do período, as matrizes das multinacionais não incomodavam seus representantes supremos. Ofertavam a eles poder absoluto na subsidiária local em troca de lealdade cega e boas vendas. Assim, estes seres ungidos pela sorte tinham delegação total para mandar e desmandar. Eram donos da verdade e senhores inquestionáveis em todas as áreas e assuntos, mesmo as que desconhecessem.

Não prestavam contas a ninguém dentro do país e só davam satisfações funcionais aos chefes internacionais. Raramente, aparecia no país algum alto dirigente da matriz para examinar as operações e quando isto ocorria, era uma análise superficial e geralmente inócua. Ou, alternativamente, poderia desembarcar uma auditoria corporativa que limitava-se a vasculhar livros contábeis. Fora isto, nada muito sério ameaçava a soberania do mandatário local. O doutor Júnior era da época romântica em que ser Presidente de empresa significava mais que um cargo. Era sinônimo de título honorífico vitalício, quase igual a ser outorgado com um cartório. A posição ilustre permitia que ele fosse convidado para os principais eventos políticos, sociais e culturais do país. Relacionava-se com poderosos e fazia parte, mesmo que informalmente, das grandes decisões nacionais.

Por causa da posição conquistada na carreira, o doutor Júnior se acostumou desde cedo a dar ordens e vê-las cumpridas sem pestanejos. Exigia obediência cega. Não falava com funcionários, só com os diretamente subordinados a ele.

Na sua sala gigantesca, no último andar de um prédio em área privilegiada, dava-se ao luxo de exercitar até uma estranha manifestação de humor. Sobre a mesa de trabalho, havia uma tabuleta que mandara confeccionar que dizia “Como amigos, basta o cachorro”.

Quando entrava nos escritórios, numa regra não escrita mas levada a sério, ele esperava sinais de reverência, como todos se colocarem de pé durante a sua presença. Era ele quem se dirigia às pessoas, jamais o contrário! Contava a lenda que funcionários desavisados que tomavam a iniciativa de conversar com o Presidente tempos depois deixavam de pertencer à organização. Quando chegava a uma filial, por mais remota que fosse, o Presidente merecia mordomias reservadas a grandes Chefes de Estado. Era como se a Corte visitasse a província. As autoridades locais da empresa se preparavam com dias de antecedência, suas mulheres compravam vestidos para recepcionar o grão senhor corporativo. As instalações eram reformadas, pintadas e limpas e até os empregados ganhavam novos uniformes.

O resultado foi o doutor Júnior se apaixonar perdidamente pelo poder. Ele não sabia mais viver sem subserviência e bajulação dos comandados ou de potenciais beneficiários de suas decisões. A vida empresarial se confundia com a sua própria, dentro ou fora das paredes organizacionais. Sentia-se um semideus em qualquer lugar: na empresa que presidia, em casa, nos restaurantes, no comércio. Não por acaso, os piores fins de semana eram sempre os vividos fora do habitat. Ao viajar e não ser reconhecido, sentia-se um mero mortal. Nestes momentos, não suportava a indiferença do mundo á sua presença e precisava retornar rapidamente à base, ver-se reinvestido em poder e status. Era vital ser lembrado pelo seu título e pela proteção da marca que o acolhera. Na vida particular, não existiam problemas que a menção de sua posição na empresa não resolvesse – desde a súbita disponibilidade de reserva impossível em vôo lotado, o surgimento mágico de uma mesa em restaurante da moda lotado, até o imediato desembaraço da bagagem nos aeroportos à sua chegada do exterior.

Por tudo isto, o que aconteceu foi muito rápido, cruel e inesperado. Foi quase obra do demônio, se considerados os vinte e cinco anos anteriores, durante os quais o poder absoluto reinou na vida do doutor Júnior de forma tranqüila e inexorável.

Eis que um dia, sem qualquer aviso – talvez diante da pressão dos investidores ou para atender novos padrões administrativos, a corporação decidiu reorganizar suas atividades em unidades de negócios. A diretriz atingiu em cheio não só a matriz mas também as suas subsidiárias. Era tudo muito funcional. Os executivos do segundo escalão passariam a cuidar das suas próprias divisões, tornando-se diretamente responsáveis pela busca do lucro das unidades. Como conseqüência, precisavam correr atrás de menores custos e melhores índices de produtividade.

Da noite para o dia, o doutor Júnior perdeu o seu poder. Cada um de seus diretores, até então cães fiéis, ganharam uma linha de reporte direto ao exterior, com total autonomia de seus negócios no país. Não eram mais obrigados, a não ser por cortesia, a dar satisfações sobre seus atos ao Presidente.

E para que serviria o doutor Júnior? Ora, diziam os ideólogos do novo modelo, para garantir á marca uma única e consistente face. No início, mais por hábito que necessidade, os ex-subordinados ainda comunicavam suas decisões ao velho chefe. Mas o tempo e a dinâmica da nova estrutura impediu que isto se perpetuasse. Tornou-se comum o orgulhoso e centralizador executivo descobrir fatos relevantes da empresa através da leitura dos jornais.

Longe de se sentir abatido, o doutor Júnior viu no formato vantagens insuspeitas. Ora, pensou ele, isto sim é que é reinar sem mandar! Coisa reservada apenas a privilegiados e nobres! Era como se fosse a Rainha da Inglaterra! Tivera sorte! Os plebeus que ficassem com os reveses da labuta. Ele tinha coisas mais importantes para cuidar, como por exemplo representar a imagem corporativa.

E assim, o Presidente passou a se encastelar na sua magnífica sala do último andar do prédio. Nela, discutia com os poucos remanescentes do outrora numeroso séqüito intermináveis e desconhecidos temas - nenhum deles, obviamente, associados aos negócios. Só mantinha uma contínua preocupação : como evitar que a coroa fosse roubada ou, pior, que despencasse de sua cabeça imperial em algum momento de distração...