Livro
A rainha das efemérides
Alcineide – fruto do amor e da mescla dos nomes de seus pais, Alcides e Francineide – foi destas garotinhas adoráveis que todos gostavam de mimar. Até a hora que cresceu e ninguém mais teve paciência com ela. Enquanto pequerrucha, gostava de dançar, imitar artista famoso, cantar parabéns, abraçar e dar beijinho em todo mundo. É o que se poderia chamar de gracinha de criança. Mas os anos a transformaram numa marmanja desengonçada. E com um agravante: continuava a se comportar de forma infantil como antes, ignorando o fator tempo…
Até porque ser criança fora a melhor parte de sua vida, a Alcineide adulta tornou-se uma espécie de Peter Pan de saias. Dava a impressão de se recusar a crescer, numa vã tentativa de perpetuar a infância perdida… Agindo assim, jamais algum homem conseguiu agüenta-la. Depois de duas ou três tentativas infrutíferas, a moça se transformou numa destas solteironas que falam com voz fininha e sempre no diminutivo, rindo de forma esganiçada de tudo – mesmo das coisas sem graça. Morava sozinha. Ou quase, pois contava com a companhia de seu cãozinho - um poodle histérico que lembrava o comportamento da própria dona. Alcineide curtia duas paixões. A primeira, evidentemente era Neném, o tal cachorrinho pentelho. A segunda coisa … bem, a empresa em que trabalhava.
Há 33 anos, exercia com muito orgulho a função de secretária do mesmo departamento e da mesma multinacional. Por sinal, o seu único e querido amor corporativo, pelo qual nutria absoluta lealdade. Lá começara a carreira e de lá pretendia sair para a aposentadoria, programada para muito em breve. O que ia fazer na nova vida que se aproximava, não tinha a menor idéia. Para dizer a verdade, nem gostava de pensar nisto. Fora do trabalho, não conseguia ver graça nas coisas. Nem mesmo a novela das oito era melhor que seu emprego! Afinal, ali fizera dos colegas os seus amigos, da rotina operacional o seu lazer e das atividades extra-trabalho a sua vida. Dividia com os colegas, num jeito maternal, as alegrias, ansiedades e tristezas. Sabia de cor datas de aniversário não só dos demais funcionários, mas também de seus cônjuges e ex-cônjuges. E mais: recitava de cor os nomes e os dias de nascimento de toda a respectiva prole.
Com tamanho domínio do assunto natalício, Alcineide acabou assumindo, primeiro por fato e depois por direito, a responsabilidade pelas comemorações de todos os aniversários dentro da empresa. Pode parecer pouca coisa, mas quem já viveu este tipo de festividade intra-muros corporativos, sabe da sua importância para a convivência em harmonia dos seus habitantes. Nestes momentos, integrantes de departamentos inimigos do dia-a-dia da competição interna se abraçam, presidentes e contínuos compartilham democraticamente fatias do bolo, amantes e amados secretos se expõem publicamente sem pudor. Festas de aniversário nas empresas são momentos mágicos. Nelas, prevalece um extemporâneo clima de Natal, onde a confraternização se desfaz mal as velas do bolo são assopradas pelo constrangido aniversariante. Por isto, tal como a função do faxineiro, quem organiza aniversários organizacionais assume a nobre missão de contribuir para a saúde e bem estar da comunidade. De certa forma, é uma iniciativa muito mais expressiva que certos programas de integração promovidos por consultores de RH e vendidos à organização a peso de ouro…
Com as doações recolhidas junto aos demais colegas, Alcineide tratava da organização das festinhas, da confecção do bolo, dos salgadinhos, dos refrigerantes, do presentinho para o homenageado... No fundo, era sempre a mesma rotina, uma tradição mais que previsível. Mas era uma manifestação que só ela considerava espontânea e que teimava em denominar de festa - surpresa…
É verdade que, ao longo dos anos, o processo havia se aprimorado. No começo, era só Dona Gertrudes, a cozinheira da empresa, que fazia um extraordinário, depois do expediente, com pouco criativos bolos de baunilha com cobertura de chocolate… Agora, passados tantos anos, a coisa se sofisticara. Alcineide tinha à disposição uma tropa de fornecedores externos altamente qualificados, que entregavam tortas, doces, salgadinhos e demais acepipes ao primeiro tilintar do telefone. Neste momento crucial, em função da generosidade na dotação orçamentária, nossa promotora de festas definia o cardápio do evento. No niver do Presidente, por exemplo, o grau de participação financeira sempre era altíssimo. Não raro permitia a contratação de um buffet sofisticado, onde salmão e caviar podiam ser localizados nas finas bandejas de prata carregadas por garçons em luvas brancas. Mas, em contraste, um aniversário de office boy mal pagava sanduíches de mortadela e guaraná junto com um destes bolos de padaria de subúrbio… Alcineide se martirizava com estas situações, é verdade. Mas tinha consciência de sua limitada influência para corrigir disparidades bajulativas da corporação, numa selva onde quem se relaciona melhor devora os demais…
A confraternização seguia um ritual onde não faltava a surpresa do aniversariante (quase sempre falsa) ao se descobrir vítima de uma homenagem inesperada. Constrangidos, aniversariante e convidados (capturados à força) viam-se frente a um bolo com uma velinha acesa, sem saber exatamente o que fazer… Neste momento, Alcineide puxava o “parabéns pra você”. E todos se viam na obrigação de acompanhar um coro desafinado e artificial. Seguia-se a inevitável cena da pessoa em foco se ver na obrigação de apagar aquelas velas cretinas que por mais que sopradas e apagadas, teimam em se reacender a cada intervalo… Isto tudo ocorria sob risinhos forçados e piadinhas óbvias dos participantes, que só pensavam na hora de atacar as guloseimas sobre a mesa e cair fora do regabofe o mais rápido possível!
Neste ritual diabólico, Alcineide gostava de pessoalmente escolher o presente. E o pior é que, infelizmente, se considerava especialista no assunto. Resultado: até pela lei da inércia corporativa - onde ninguém participa, aceita as coisas como são apresentadas e depois as critica exaustivamente - o pobre homenageado podia perfeitamente levar para casa um regalo inútil. Como uma camisa talhada com cortes obsoletos, cores duvidosas e tamanhos maiores ou menores que o seu.
Os colegas mais antigos de Alcineide, em respeito ao tempo de casa da funcionária ou com receio de bater de frente com a cultura organizacional, aturavam tais celebrações… Pelas costas, zombavam da promotora e do circo inconveniente e anacrônico que ela armava. Os mais novos, sem qualquer compromisso com o passado, a hostilizavam abertamente, sabotando as suas realizações. O fato é que, não se sabe quando nem por quem, Alcineide ganhou o apelido de Rainha das Efemérides. Um gaiato chegou a propor através do programa de sugestões da empresa que se criasse um Departamento de Comemorações. Sob a égide de RH, este setor permitiria otimizar recursos, centralizando as festas e cabendo à Alcineide a gerência de tão nobre atividade…
Alcineide era da época romântica em que as empresas conviviam com luxos comportamentais por parte de seus funcionários. Mas estes tempos se foram com fatores como uma tal de competição em economia globalizada. Acabaram-se receitas financeiras generosas, gorduras nos lucros, consumidores cativos que aceitavam pagar bovinamente por qualquer preço estabelecido para um produto.
A organização a qual Alcineide pertencia não ficou imune à mudança de ventos corporativos. Um dia chegou uma nova administração que tratou imediatamente de identificar oportunidades de redução de despesas. Logo deu de cara com as festinhas de aniversário. Segundo estimativas dos auditores externos contratados, todos treinados para tirar sangue da operação, representava uma substancial perda de produtividade. Somando-se o tempo das pessoas envolvidas nestes eventos durante o expediente – incluindo a convocação, o sopro das velinhas, a hora do parabéns e a absorção do último quitute - eram 2 mil horas/homem desperdiçadas por ano! Aquilo tinha que acabar, começando com o emprego da Rainha das Efemérides.
Apesar de tudo, esta história tem um final feliz. Alcineide foi convidada a antecipar a sua aposentadoria. Uma empresa contratada para recolocá-la profissionalmente concluiu que ela poderia explorar um nicho de mercado pouco disputado: o da terceirização de eventos empresariais internos. Tinha tudo para ganhar dinheiro com o seu verdadeiro core business. E juntava-se assim a fome com a vontade de comer. As empresas se livravam dos aniversários feitos dentro de casa, com recursos internos e durante o expediente. Do outro lado, Alcineide ganhava uma atividade rentável e culturalmente importante para o moral da tropa.
Foi assim que nasceu a ECA - Efemérides CorporativasAlcineide – uma empresa especializada inicialmente apenas na organização de aniversários de funcionários. Mas com o tempo, diante do retumbante sucesso, a firma diversificou sua atuação. Passou a prestar serviços para áreas afins, como batizados, casamentos, aposentadorias e festas de fim de ano, entre outros. E, para alegria de todos, ao fornecer uma gama completa de celebrações extra-operacionais, Alcineide se tornou a mais próspera promotora de eventos que já se teve notícias no campo empresarial.