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O penico cor-de-rosa

 Quando Monteclair entrou em casa, seu péssimo humor era visível. Tanto que a primeira coisa que Cidinha, sua mulher, fez foi esconder Lopes, o velho pequinês da casa. Não que o marido fosse um sujeito agressivo. Mas naqueles raros dias de maus bofes que antecediam o fim do ano, Monteclair era bem capaz de chutar o bichinho, caso caísse na besteira de lamber o patrão. (Cidinha adorava o seu cachorro. O animal fazia parte de uma raça cada dia mais rara, talvez obsoleta... quem sabe, substituída por poodles, o cachorro da vez... Se isto não é verdade, me diga onde foram parar todos aqueles pequineses acompanhados de suas respectivas madames?)

 Toda vez era assim. Monteclair, ótimo sujeito, marido modelo, filho amoroso, pai extremado, amigo inseparável, vizinho prestativo, mudava de personalidade quando dezembro se aproximava... Podia regular no calendário. Bastava novembro acabar e o homem começava a se transfigurar. Mas quem convivia com ele entendia a razão: Monteclair era vendedor de uma importante empresa de produtos de limpeza. Nesta função, como não poderia deixar de ser, recebia uma cota de vendas que precisava cumprir a cada ano. A companhia tinha um sistema de avaliação muito simples e objetivo. Para quem chegasse aos números estabelecidos, oferecia o céu. Para os faltantes, mostrava o caminho do inferno – sem escalas! O pior é que, para Monteclair, a cada ano os objetivos estavam se tornando mais difíceis de ser alcançados. Triste destino! Para que fosse bem sucedido profissionalmente, sem que pudesse exercer qualquer controle sobre a situação, era preciso que mais gente tomasse mais banhos ou lavasse mais panelas, azulejos e pias.

 Apesar da tensão e do mau humor na véspera de fim de ano, nos últimos 23 anos na empresa ele nunca deixara de cumprir as metas de vendas. Mas o seu passado heróico não oferecia qualquer garantia de futuro. E aquele ano, particularmente, as coisas pareciam estar piores... Ele estava perdendo o pique de jovem. Já não agüentava dirigir com o mesmo entusiasmo o carro da empresa por todos os rincões do território de vendas a ele designado. A rotina que tanto dominara no passado estava se tornando um fardo cada vez mais pesado. Debaixo de chuva ou sol, aprendera a ouvir desaforos de compradores mal-educados ou esperar ser atendido depois de horas de espera... Mas agora, pela primeira vez, tinha medo... de não atingir a cota e, terror dos terrores, não ser convidado para... (sim, tomemos coragem e digamos a palavra sagrada do evento-maior de vendas, razão maior de sua vida profissional)... a convenção de vendas!

 Rápido parêntesis: você tem idéia do que é uma convenção de vendas? Está preparado para importantes revelações? Então vamos lá! Digamos que quem julga que o conceito de pão e circo – ou seja, mesclar, de forma bem popular, doses de trabalho com entretenimento - ficou restrito à Roma antiga se enganou. Na verdade, a idéia de fazer as pessoas se divertirem para esquecer as agruras de uma labuta geralmente insossa nunca desapareceu. Esteve sempre presente na história do homem, sob os mais diferentes formatos e nomes. Hoje, o pão e circo encontra seu melhor refúgio e garantia de sobrevivência dentro das modernas corporações. Sob os mais diversos títulos, a empresa procura premiar com risos e alegria, bonés, chaveirinhos e camisetas com a sua marca toda a energia gasta pelo corpo de vendas na criação de valor. E nenhuma outra demonstração corporativa desta filosofia encontra representatividade mais expressiva que nas chamadas convenções de vendas.

 Nelas, quase tudo é permitido, desde que leve a vender mais no ano seguinte. Com o objetivo de restabelecer energias perdidas e motivar indivíduos esgotados ao impossível, organizam-se grotescas festas com direito a:

   - Centenas de homens alegres, gritalhões e grosseiros inevitavelmente a
      caminho do porre 

  -  Audiovisuais cafonas falam frases de efeito que matariam de vergonha
      qualquer  autor de livro de auto-ajuda; As trilhas musicais são cafonas e a
      voz do locutor... idem.

  -  Dadas as circunstâncias de escassez absoluta do sexo oposto, poucas mulheres vêm-se literalmente ungidas ao estrelato, tornando-se efêmeras ilhas femininas cercadas de barbados babados por todos os lados

  -  Discursos confusos e certamente nunca lembrados são pessimamente lidos por algum chefão que deixa por alguns momentos sua postura arrogante e inacessível para se tornar um igual. Nestas ocasiões, geralmente uma alma irreverente mistura canais hierárquicos, vive uma falsa intimidade com a autoridade presente e quando volta à batente perde o emprego, sem saber bem por quê...

  -  Refeições nababescas são servidas, onde vale misturar tudo: estrogonofe com farofa, medalhão madeira com bobó de camarão, arroz com macarronada, sushi com feijão, bacalhau com rabada. Para beber, há o refrigerante diet – “que é para ninguém engordar” - uma ou outra cerveja, para o pessoal se comportar até o final do jantar... Com um pouco de sorte, pode até sobrar um uisquinho de segunda linha da mesa vip (leia-se diretoria) no final do rega-bofe.

 Mas vamos deixar de lado este assunto para contar como terminou o ano de Monteclair. Lamentavelmente, o nosso herói não atingiu os objetivos. Mesmo assim, para sua surpresa, foi convidado para a convenção de vendas. Talvez, especulou, seria em respeito aos seus 23 anos de trabalho contínuo, sem férias e folgas... Quem sabe a empresa estaria abrindo uma exceção para a sua falha? Quando recebeu o convite, quase morreu de felicidade. Tanto que na véspera da viagem de ônibus – a corporação fechara um hotel no interior de São Paulo para o evento – até acariciou Lopes, o pequinês - para espanto de todos, inclusive do próprio animalzinho...

 Convenções – nunca é demais ressaltar – vivem de surpresas. De dentro de bolos, podem sair mulheres gostosas ou travestis vestidos em trajes sumários e com véus de feiticeiras. A qualidade e a fama dos protagonistas destes espetáculos variam diretamente em função da disponibilidade de verbas para a sua realização. Assim, os shows da noite de gala das convenções podem ser apresentados por vedetes famosas ou decadentes, cantores da moda ou pagodes de segunda linha, humoristas engraçados ou aqueles que a gente pensava mortos. Mas o principal momento é o das premiações. Neles, são reconhecidos os que mais fizeram pelos negócios da empresa durante o ano. Chamados pelo nome e sobrenome, recebem aperto de mão, ganham palmas e abraços da cúpula dirigente. Desfilam sem jeito pelo palco vendedores que vivem seus quinze segundos de fama, voltando ao anonimato mal começam a descer os degraus do tablado.

 Pois neste ano, havia uma surpresa especial. Para receber uma homenagem, comovido, Monteclair foi chamado ao palco. O galã de plantão que apresentava a cerimônia – um ator de segundo time da novela das oito de dois anos atrás – entregou-lhe uma misteriosa caixa. A pedidos, abriu o pacote ali mesmo, sob as luzes e atenção geral. Debaixo de risos histéricos, assovios e gozações dos colegas, tirou de dentro um pinico cor-de-rosa. Foi quando explicaram que era o prêmio pela merda de resultados que ele tinha dado à empresa naquele ano ...

   n ota do autor: Por incrível que pareça, a história do pinico cor-de-rosa existiu. Quem viveu a situação real, sabe bem!