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O paraíso dos vice-presidentes

Com o inexpressivo nome de John Smith, nascido num quase-esquecido subúrbio de Cincinatti, Ohio, interior dos Estados Unidos, qualquer um poderia passar desapercebido pela vida, ainda mais pela comunidade corporativa. O mundo dos negócios é hoje liderado por verdadeiros mitos da era moderna. No universo das empresas, se um sujeito baixinho, tímido e ligeiramente estrábico como Smith tentasse abrir portas para uma carreira executiva em qualquer multinacional de peso, seria certamente rechaçado nas primeiras entrevistas de seleção. Por tudo isto, a sua trajetória vencedora impressiona. Smith tinha todos os predicados para terminar seus dias no máximo como subgerente de uma cadeia secundária de supermercados de Cincinatti, Ohio, onde passou praticamente toda a vida.

 Mas não foi isto que aconteceu. John Smith soube explorar um nicho desprezado por dez entre dez empresas que iniciam operações em escala mundial. Antenado com os novos tempos, após observar a realidade gerada pela globalização, fundou uma ONG (organização não governamental) voltada a divulgar e apoiar Vice-Presidentes em suas peregrinações internas e externas. Batizou esta entidade de Global Vice-President Association – ou GVPA, como passou a ser conhecida desde então. Em paralelo, adotou duas medidas. A primeira foi autodenominar-se John Smithsonian Jr., com o objetivo de importar status e associar seu nome a uma marca de sucesso. A segunda – coerentemente – tornou-se Vice-Presidente de sua organização, banindo de vez o título de Presidente ou CEO de todos os registros ou referências. O enorme sucesso de sua iniciativa credenciou John Smithsonian Jr. como o maior especialista em Vice-Presidências de todos os tempos.

 Para melhor conhecer as realizações da GVPA, e o pensamento deste fascinante homenzinho, estivemos virtualmente com ele durante duas horas. Inicialmente nosso contato começou pela internet - mas após sucessivas quedas de link, devido a um ataque inesperado de hackers, decidimos completar a conversa por telefone. Segue-se um resumo dos melhores momentos da entrevista:

 FR – Como o Sr. percebeu o potencial para uma associação de Vice-Presidentes?

 JSJ – O Vice-Presidente sempre esteve associado nas empresas ao sujeito não tão brilhante para se tornar o principal, mas não tão idiota para ser um gerente. No passado, o VP era um cargo político, ocupado ou por um segundo, filho ou sobrinho de dono, um sócio minoritário ou algo assim, sempre na esperança de um dia chegar ao topo... Mas felizmente os tempos mudaram! Graças à globalização, hoje os VPs são personagens-chave na presença internacional da empresa. É uma questão de tempo, mas acredito que a figura do CEO será extinta, pois se obsoletou com novas necessidades da economia...

 FR - Como assim? A maioria das pessoas não prefere ser Presidente do que um relés VP da empresa??

JSJ - (Irritado) Antes de mais nada, precisamos estabelecer um código de respeito nesta conversa! Se você voltar a este tema de CEO desta forma, encerramos aqui mesmo esta entrevista! Ou então vá ao Clube dos CEOs ou nome que o valha falar com eles... Mas se estiver despido de insinuações tendenciosas, podemos continuar...

 FR – Tudo bem! Voltemos à sua resposta, por favor...

 JSJ - Veja você: como resolver o dilema de um presidente ter que estar ao mesmo tempo por vezes em cinco a dez lugares da Terra que são igualmente importantes para a estratégia da organização? O que fazer se um CEO morre? Ou se um headhunter compra seu passe, deixando a empresa à deriva? Não se pode mais concentrar tanto poder em uma única mão. Nas empresas mais inteligentes, os CEOs tendem a se tornar rainhas da Inglaterra – reinam sem governar e ninguém sente suas faltas, mesmo que sejam seqüestrados! Por outro lado, enquanto só existe espaço para um Presidente, a corporação pode ter quantos VPs quiser: 10, 50, até 100! Além disso, ninguém – mídia, acionistas, analistas - questiona excesso de VPs. Este é o tipo do cargo que pode ser criado ou extinto na hora, sem burocracias. Só faltava alguém valorizar este cargo, destacar sua importância vital, a partir das necessidades ditadas pela economia internacional.

Os VPs são hoje tratados como verdadeiros Chefes de Estado, com pompas e circunstância, em suas viagens...

 FR – Onde isto ocorre? O Sr. poderia explicar melhor?

 JSJ – Do mesmo jeito que há paraísos fiscais, observamos o fenômeno do surgimento de paraísos vice-presidenciais espalhados pelo mundo. Há alguns lugares – o Brasil talvez seja o melhor exemplo - onde isto ocorre de forma expressiva. Os brasileiros são loucos por um Vice-Presidente corporativo! Recebem qualquer um deles com carinho e atenção, repartindo doses iguais de importância e prestígio. Qualquer VP que vai lá, só viaja de primeira classe e é recebido em sala VIP de aeroporto. Se souber negociar, trafega de helicóptero, tem esquema de segurança, mordomias inigualáveis. Em ou dois dias de visita, dá mais entrevistas coletivas para a imprensa que em sua vida inteira. E ainda é recebido por autoridades, políticos, empresários e formadores de opinião como se fosse um verdadeiro rei. Não é para menos que temos na GVPA associados que disputam quase que a tapas e socos o prestígio de viajar para um destes paraísos vice-presidenciais. Afinal, este tipo de liturgia, antes reservada para tão poucos, é sem dúvida a melhor massagem para o ego que um VP poderia receber...

 FR – Pelo que o Sr. fala, todos os VPs seriam iguais...

 JSJ – De jeito nenhum! Este é um preconceito que ainda perdura na comunidade empresarial. Quando falamos sobre Vice-Presidência, estamos nos referindo a uma carreira dentro de uma carreira executiva. Tanto um sujeito com 20 anos quanto um de 60 podem se tornar Vice-Presidentes. O que os distancia é o grau de experiência ou senioridade. Além disso, cada um representa organizações distantas, com tamanhos e importâncias diferenciadas. Assim, não se pode grosseiramente colocar todos os VPs dentro do mesmo saco. Hoje existe uma escala de evolução profissional que contempla todos os níveis hierárquicos desta carreira. Por exemplo, há o VP Junior, para os que estão começando; o VP Associado, caso ainda exija supervisão e apoio em decisões mais complexas; o VP Sênior, quando sua experiência já atinge patamares elevados e o VP Executivo, que é o que manda de fato e que é o VP dos VP. Na prática organizacional, é ele que dá as cartas, ou porque o Presidente é incompetente, obsoleto ou simplesmente não quer mais se matar de trabalhar... Graças a uma ética de classe, as maiores corporações não divulgr a qualificação dos VPs, preferindo adotar para o público em geral o título genérico de Vice-Presidente.

 FR – Mas pelo que o Sr. diz, vale mais a pena ser VP que CEO hoje em dia...

 JSJ – Vamos falar francamente? Estes CEOs só levam a fama... Quem toca a empresa somos nós, os VPs. Veja, por exemplo, uma destas viagens internacionais: nós é que abandonamos nossas famílias, a comodidade do lar, e corremos riscos de sofrer um desastre aéreo, uma intoxicação alimentar em coquetéis (destes que nem sabemos o que acontece na cozinha...), sermos vítimas de seqüestros, humilhações em piquetes de greves, responder perguntas embaraçosas ou burras em entrevistas à imprensa...

 FR – Falando nisso, por que todo VP tem a capacidade de responder aos jornalistas sem se comprometer, dando respostas evasivas e vazias?

 JSJ – Este é um mérito da GVPA do qual temos orgulho. Logo nos primórdios da ONG, desenvolvemos o decálogo do Vice-Presidente, que funciona como um kit de primeiros socorros para o associado que tem contato direto com a imprensa.

 FR – O Sr. poderia dar exemplos?

 JSJ – Vou dar só um exemplo. Se quiser mais, torne-se VP e associe-se ao GVPA (risos). Quando perguntado sobre a razão de sua visita ao país, a resposta padrão deve ser “estamos avaliando oportunidades de investimento, mas preferimos não divulgar neste momento, por razões estratégicas”. Nunca falha! Toda vez que uma “ovelha desgarrada” tentou um desvio deste texto, se estrepou...

 FR – Quais são os seus planos futuros para a GVPA?

 JSJ – Temos um longo caminho. Precisamos eliminar bolsões de preconceito que persistem em relação aos VPs. Por outro lado, há muito VP envergonhado, que precisa ter orgulho de sua situação e sair do armário! (risos). Vamos perseguir o objetivo de dar visibilidade e dignidade à função, fazendo com que cada um de nossos associados estufe o peito ao dizer o cargo. Enquanto ainda existir gente que acredita que um CEO ou Presidente de empresa é mais importante que um VP, ainda teremos pela frente a árdua batalha da catequese e conquista dos bárbaros corporativos!