Livro
O Pagador Distraído
Valmir era tão esquecido que não lembrava nem o dia do próprio aniversário. Parecia andar continuamente nas nuvens. Era comum vê-lo sair de casa com o cabelo em pé, usando óculos de sol à noite, calçar um pé de sapato marrom e o outro preto. Por isto, era motivo freqüente de piadas por parte da vizinhança.
Tudo poderia ser muito engraçado para os demais, mas não para os pais de Valmir – imigrantes humildes, donos de um comércio de bairro – que, trabalhando dia e noite, faziam todo tipo de sacrifícios para dar ao filho único as melhores condições de educação, de olho num futuro mais próspero e tranquilo.
Mas, apesar do jeito avoado do filho, nem tudo estava perdido. Valmir tinha um talento natural para as contas, materializado na ajuda na loja e que trazia esperanças para os velhos. Quem sabe aquele rapaz não seria um Einstein em potencial? Afinal, o pai lera em algum lugar, o grande gênio fora também bastante distraído, péssimo na escola, na infância ninguém apostava nele. Por quê com o seu Valmir não seria assim também?
É sempre a mesma coisa. Só os pais, cegos de amor, têm a capacidade de ver num filho tímido e sem maiores expressões a reclusão típica de um ser criativo que vive num rico mundo interior. Ou identificar na alarmante esquizofrenia do seu rebento traços de genialidade excêntrica. Com Valmir, não foi diferente. Apesar da visível falta de apetite do filho para vôos mais altos, já que sua vocação para os números se encerrava nas quatro operações aritméticas básicas, o casal não se dava por vencido. A cada dia, apostavam mais no menino, como se ele fosse o garanhão vencedor em um páreo de um só cavalo.
Eles o inscreveram em todos os cursos da moda que apareceram no subúrbio onde moravam. Em troca de divulgação gratuita na vitrine da lojinha, eles fizeram Miro estudar datilografia, inglês, taquigrafia, oratória, fotografia, informática, física quântica, neurolinguística, ética, espanhol, e tudo o mais que uma permuta deste gênero pudesse permitir... Como todo curso caça-níqueis que se preza, nunca alguém se propôs a medir no aluno os resultados deste investimento intelectual. Ainda mais em se tratando de um convênio de vitrine, no sentido da palavra. Pois, se nada absorveu, tampouco ninguém o incomodou com testes de aprendizagem... Assim, Valmir ganhou diplomas sem precisar provar nada.
Com seu jeito blasé de homem distraído, Valmir fazia caras e bocas destas que a gente nunca sabe se está diante de um imbecil ou um gênio. Assim, atravessou todas as etapas acadêmicas sem brilhos. Formou-se em Contabilidade, um curso que se não chega a comprometer seriamente o prestígio de quem o cursa, tampouco merece foguetórios e champanhe na sua conclusão...
Foi quando ele tomou conhecimento de uma multinacional que oferecia uma carreira sólida e próspera para jovens talentosos em busca de oportunidade... Mas havia um pequeno pormenor: era condição que os aprovados fossem morar no interior de um município perdido num estado menor da federação - destes que se ouve falar mais pelo movimento de exportação de gente que de importação... Era uma espécie de paraíso fiscal, onde a empresa decidira implantar uma nova unidade industrial, na eterna busca por custos operacionais mais favoráveis.
Valmir foi contratado,mas não se sabe se por falta de candidatos, excesso de diplomas ou algum tipo de mérito invisível. Semanas depois, já morando no fim do mundo onde a empresa se instalara, assumiu o posto de assistente de contas a pagar. A função era simples: liquidar contas devidas pela multinacional aos seus fornecedores. Se por um lado a destreza com as quatro operações básicas era um requisito plenamente preenchido, a distração crônica colocava em cheque todo o processo. É que Valmir vivia esquecendo de pagar débitos pendentes!
Jamais a história corporativa registrou tamanho desdém pelo dinheiro alheio. Valmir não era mal intencionado, nem mesmo orientado a adiar os pagamentos por conta de malabarismos da direção financeira - como tantas vezes ocorre por aí. Simplesmente era um sujeito distraído no lugar errado. Assim, fornecedores de todo porte trincavam dentes de raiva, telefonistas ouviam desaforos, viúvas e aposentados choravam de desespero, advogados ameaçavam...
Mas as relações humanas seguem uma lógica que não faz qualquer lógica. Inexplicavelmente, a indiferença monetária de Valmir nunca trouxe qualquer conseqüência. A maioria dos credores, perplexa, não conseguia entender como a multinacional de peso deixava de cumprir compromissos financeiros tão básicos. Por isto, preferia acreditar numa ótima razão invisível para tal procedimento. Assim, formou-se uma estranha inércia onde ninguém pressionava, aguardando o próximo tomar alguma atitude a respeito. Todos tinham medo de represálias radicais que colocassem em risco o relacionamento com a empresa. Por outro lado, a burocracia adota rumos obtusos que fazem com que reivindicações honestas se percam nos meandros das organizações. O fato é que dentro da multinacional, apesar dos processos de qualidade, tampouco se constatou que fato de tal gravidade ocorria, corroendo a sua reputação e imagem corporativa.
Foi quando, de forma espontânea, preenchendo o vácuo operacional, começaram a surgir caminhos alternativos para superar o impasse. Um dia, Valmir começou a ser paparicado com pequenos mimos pelos fornecedores mais afoitos. Inicialmente, chegou uma inofensiva caixinha de bombons com um bilhetinho. Nele, o desesperado credor pedia atenção para uma fatura em aberto. É preciso esclarecer que Valmir não era corrupto. Mas aquela nota funcionou como um acelerador de ação. A partir do lembrete, o esquecido funcionário, constrangido com o atraso, providenciou o pagamento pendente. Como a maioria dos homens de negócios não tem sensibilidade nem tolerância para comportamentos heterodoxos, o brinde (e não o bilhete) foi interpretado como um catalisador da ação de Vilmar. Boca a boca, a notícia do micro-suborno foi se espalhando. Diziam que um agrado fazia milagres para desemperrar faturas paralisadas nas mãos de Valmir.
Estabeleceu-se, assim, ninguém sabe dizer como e quando, uma jurisprudência contábil de favores. Neste código não escrito, um jogo de débitos e créditos traduzido em presentes para o agente da multinacional funcionava como moeda de troca para o desembaraço de pagamentos pendentes.
Aos céticos que vêem nas empresas apenas fontes de problemas de saúde mental e física, fica a lição de que às vezes pode ocorrer justamente o contrário. A vida corporativa pode curar males crônicos. Foi graças a ela que Valmir nunca mais se esqueceu de pagar nada. Claro que, por via das dúvidas, pequenos reforços de memória dos interessados nunca mais foram deixados de lado. Para lembrar grandes pendências, passaram a chegar às mãos de Valmir televisões ou outros eletrodomésticos. Para recordar valores médios, uma garrafa de uísque. E para itens de pequena monta, um CD da moda ou uma gravata eram enviados ao pagador. Estes inocentes mimos corporativos, mais pela formidável capacidade de recordar compromissos, passaram a despertar em Valmir uma irresistível vontade de acertar pendências. Para alegria geral, o processo de contas a pagar da multinacional até foi agraciado com um ISO. E tudo terminou bem, pois até ganhou um patrocinador oficial para ressarcir os pobres fornecedores de um eventual ônus adicional: um tal de consumidor final!