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Nunca te vi, sempre te conheci!
Borges está prestes a tomar um avião da ponte aérea. Aristides, que também se encontra na mesma sala de embarque do aeroporto, o observa atentamente. Mantém o olhar fixo em Borges como se o estivesse reconhecendo de algum lugar. O pior é que Borges também tem uma forte sensação de que já viu aquele sujeito antes. Será imaginação? Ambos têm as mesmas dúvidas: será que trabalharam juntos em uma das empresas por onde passaram? Teriam participado de algum curso destes de meio dia que todos estão lá, mas mal se integram? Ou quem sabe foram apresentados em algum coquetel destes que todos falam com todos, mas no fundo ninguém ouve ninguém? Será que o sujeito à frente é um headhunter, um executivo, um dirigente de organização incubadora de start-up de sites na internet? Ou alguém que pode oferecer-lhe o baú da felicidade corporativa e ele está arrogantemente ignorando a oportunidade de fazer contato? Apesar de recorrer às suas respectivas agendas mentais, nenhum dos dois consegue lembrar de onde conhece o outro. Até que um deles toma a iniciativa e quebra o impasse.
Segue-se o diálogo:
“Oi, como vai você?” – cumprimenta Aristides.
“Vou bem. E você?” – responde automaticamente Borges.
“Estou indo para o Rio... E você?”
“E eu para Brasília...”
“Muito trabalho? Pois eu ando sem tempo até para ir ao banheiro. Estou em falta com a família, com os amigos nem se fala... Imagine que até já pensei em terceirizar a minha vida sexual... Ah! Ah! Ah!”
“Bom, você ainda é feliz. Eu estou trabalhando tanto que há quinze dias não vejo família. Eles é que estão aproveitando a vida... na praia, de férias... Quem dera... Mas com esta história de reestruturação, a empresa está trabalhando a todo vapor, tudo por fazer. Ou melhor, refazer, agora em novas bases. Sabe como é ...”
“Claro que sei. Comigo também as coisas andam bravas: houve uma fusão e agora ninguém mais se entende na companhia... se eu tirar férias, corro o sério risco de voltar e não encontrar nem meu cargo nem lugar para sentar...”
A conversa dos dois é bruscamente interrompida pelos microfones. A voz esganiçada de uma representante da companhia aérea convida passageiros para um embarque qualquer. Ela repete, sem qualquer entusiasmo, provavelmente pela milésima vez, um texto modorrento e burocrático, daqueles que ninguém presta atenção, mas que só serve para irritar os ouvintes compulsórios dos presentes.
O mistério persiste. Um continua sem saber quem é o outro. Mas ambos estão se falando com tanta intimidade que agora o contato passou do ponto do não retorno. Isto quer dizer que não dá mais para perguntar o nome do outro e de onde se conhecem. Pode ficar ofensivo... E aí, lá se vai a oportunidade de um convite de carreira, qualquer coisa assim... Quem sabe no avançar da conversa, surge alguma nova pista... Borges toma a iniciativa e começa a pesquisar a vida pessoal do seu interlocutor:
“E as coisas em casa, vão bem?”
“Tudo igual... nada de novo. E você?”
“Bom... mais ou menos na mesma também...”
“Tem feito algum exercício? Você está muito bem fisicamente...”
“Bondade sua. A única coisa é que evito comer fritura e açúcar, mas nesta loucura nem sempre dá tempo... às vezes almoço a negócios como um rei, às vezes como salgadinho de avião... De tanto viajar, a gente nem sabe onde vai acordar... Já aconteceu com você? Pois é... a vida fica bem desregrada... sabe como é...”.
“Nem precisa me dizer. Claro que sei!... Acha que não vivo na mesma situação?”.
Entra na sala uma artista de televisão. Todos olham. Ela percebe, mas finge que não nota estar sendo observada. Com charme e um jeito blasé, ela gosta de ser reconhecida pelo público. Principalmente o masculino, que predomina naquela sala desinteressante de aeroporto ... Os olhos da moça devem estar até brilhando, por trás dos óculos escuros.
“Sabe quem ela é ? Famosa, capa de todas as revistas... Li em algum lugar que acabou de se separar...”, conta Borges.
“Não me diga! E o marido, arranjou outra?” – ri Aristides, num tom matreiro.
“Não é bem assim... Parece que arranjou foi um outro... Ah! Ah! Ah!”.
“É... não dá pra entender esta gente. Definitivamente quem trabalha em televisão pertence a uma fauna de outro zoológico...”
Agora estão íntimos. Falam baixinho e próximos, como dois velhos amigos. Mas no fundo, pensam (quase que simultaneamente) “quem será este sujeito? De onde será que eu o conheço? Ou, quem sabe, nem o conheço...” A situação torna-se cada minuto mais intrigante e embaraçosa. Não há qualquer clima para uma pergunta honesta e direta do tipo “desculpe, mas não sei quem você é...”
Aristides toma a iniciativa e recomeça o diálogo:
“Andei mal estes dias... Imagine que minha mãe morreu semana passada...”
“Puxa, sinto muito... Mas, o que aconteceu com ela?”
“Comeu alguma coisa que fez mal... a gente não sabe direito... Morava sozinha, é capaz de ter tomado leite estragado, comida em lata com data vencida, sei lá... Velhice é fogo... O que se há de fazer?”
“É mesmo! E a gente que trabalha não pode mais contar hoje com estes programas de aposentadoria das empresas... Esperar algo do governo, a gente nunca esperou... Mas atualmente nem das empresas existem garantias... De repente, aparece uma fusão maluca, uma mudança na política de benefícios, um programa de demissão voluntária que surge do nada e babau... lá se vai a velhice tranqüila para o beleléu...”
A conversa é novamente interrompida pela recepcionista de voz esganiçada. De volta ao microfone, ela é mensageira de uma notícia de importância duvidosa sobre um avião que acabou de pousar e que está sendo preparado para embarque em quinze minutos.
“Aeroporto é um saco!”
“É...”
“Mas é melhor que rodoviária...”
“Ah, isto é mesmo...”
“E trem, hein?”
“Deus me livre!”
O assunto entre os dois está evidentemente acabando. Mas o mistério não. Pelo contrário: amplia-se a cada segundo. Vira para cada um até uma questão de vida ou morte. Procurando ser o mais discreto possível, Aristides entorta o pescoço na vã tentativa de ler o nome do interlocutor na sua maleta de mão. Impossível. O movimento necessário para completar esta contorção exigiria perícia de circo, o que definitivamente não é o seu caso. Além disso, ia chamar demais a atenção... É quando tem uma idéia:
“Linda maleta, a sua! Posso dar uma olhada?”
“Você gostou? Mas só que não é minha. Estou levando para um colega... Tem até o nome dele aqui, quer ver? João Laporta...”
Diante do malogro da operação, Aristides desiste. Nada acontece. Ficam alguns minutos calados, sem saber bem o que dizer. O tempo passa... A funcionária de voz esganiçada chama para um vôo. É o de Borges:
“Bom. Foi muito legal rever você!”
“Eu também gostei muito. Você não mudou nada!”
“Então... a gente se vê qualquer hora. Dê lembranças ao pessoal!”
“Igualmente! Um abraço!”
Borges se dirige para o portão de embarque e desaparece, sem olhar para trás. Aristides, por sua vez, abandona as infrutíferas tentativas para decifrar consigo quem foi aquele sujeito que com quem conversou até agora... Gasta os últimos minutos na sala de embarque, enquanto o seu vôo não é chamado, para dar mais uma olhadinha na artista da tevê. Sonha acordado:
“Quer dizer que a moça acabou de se separar, hein? Quem sabe, num golpe de sorte, ela senta ao meu lado no avião...”