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A moça que vendia felicidade corporativa

Desde os três anos de idade, Vera Celeste era muito comunicativa. Precisava ver que gracinha vê-la atender ao telefone, estabelecendo conversa com qualquer interlocutor que ligasse para a casa, mesmo que por engano. Como fazia muitas perguntas e adorava ver tevê, achavam que um dia ia ser locutora de noticiário. Mas, por estas razões inexplicáveis, a menina mostrou-se pouco fotogênica. Nas fotos ou no vídeo, suas orelhas e nariz cresciam em proporções alarmantes, os olhos e a boca misteriosamente sumiam... Mesmo trabalhar em rádio tornou-se inviável. Vera Celeste falava muito rápido e não havia mortal que acompanhasse o pique de sua tagarelice. Jornalismo impresso? Nunca se interessou.

Assim, se o sonho acabou na área artístico-jornalística, permaneceu intacto nas atividades técnicas. A moça concentrou todas as energias nos estudos. De família abastada, conseguiu patrocínio do tio, dono das Indústrias Reunidas Garça-Pombo, para cursar o MBA em uma universidade americana. Lá, especializou-se em recursos humanos, a área que chegava mais perto do plano original de se relacionar com as pessoas.

Quando voltou ao Brasil, o tio garantiu-lhe emprego na organização. Com base no estado-da-arte do que aprendeu em termos de relações interfuncionais, convivência em harmonia e lazer corporativo programado, introduziu na empresa os conceitos que a fariam modelo para a região, quiçá para o país, e por que não, para o mundo. Assim, ela tornou-se Gerente de Motivação de Pessoas, com a missão de transformar as Indústrias Reunidas Garça-Pombo num lugar cada vez mais agradável para se trabalhar e conviver.

Uma linda carta de Vera Celeste apresentou o programa, denominado de Veracel em homenagem à sua criadora, aos seis mil funcionários da empresa. Na correspondência, explicava que o processo de globalização exigia que a empresa bem sucedida mantivesse os funcionários motivados e compromissados com o seu sucesso. Por isto, era fundamental que cada associado sentisse a empresa como uma extensão de seu próprio lar.

Após pesquisa entre os funcionários para saber o que mais gostariam de encontrar na empresa, Vera Celeste implantou as seguintes atividades:

- Lazer e qualidade de vida: coral, teatro, videoclube, relaxamento e meditação

- Saúde e estética: ginástica, cabeleireiro, manicure e costureira,

- Alimentação:churrasco, comida vegetariana, macrobiótica e lanchonete

- Cultura: biblioteca, palestras educacionais,

- Cursos: idiomas, computação, jardinagem e floricultura, decoração de interiores

A seguir, num passo mais ousado, estas atividades passaram a funcionar também durante o expediente. Para complementar, em todos os prédios da empresa foram instaladas saunas e piscinas, assim como sofás para os que estressados pudessem repousar após o almoço ou a qualquer hora do dia.

Uma nova pesquisa de opinião interna - a moça aprendera, na universidade americana, a técnica de mensurar sempre que possível - provou o acerto das ações. Segundo o estudo, 98,7 % dos funcionários aprovavam o Programa Veracel, provando que aquela era a melhor empresa para se trabalhar no mercado. Na época, Vera Celeste ganhou inúmeros prêmios das associações de classe, concedeu entrevistas e fez palestras por todo o Brasil.

Até que um dia chegou uma carta do principal cliente cancelando os tradicionais contratos de fornecimento das Indústrias Reunidas Garça-Pombo. No texto, o Presidente da empresa reclamava que os prazos não vinham sendo cumpridos, a qualidade dos produtos caíra e que nunca encontrava os profissionais em seus postos de trabalho. Dava exemplos. Num dia de crise, ligou mas sequer a telefonista da empresa atendeu. Segundo o segurança de plantão que respondeu à chamada (era terceirizado e portanto não se beneficiava do Programa Veracel), a operadora dos telefones corporativos estava na manicure mas voltaria em uma hora. Ao procurar pelo Diretor de Vendas, soube através do office boy que o executivo encontrava-se inacessível, estressado, em sua siesta vespertina. Tentou o assistente, mas mesmo este estava ausente, cantando no coral da empresa. A secretária fora ao seu curso de jardinagem. Finalmente, quis reclamar com o Presidente, mas ninguém atendeu o telefone.

A carta do cliente não era um fato isolado. Dias depois, outros clientes também cancelavam seus laços comerciais. Desesperado, o Presidente, mesmo sabendo que estava mexendo em ninho de marimbondo familiar, descontinuou todos os programas da sobrinha. Indignada, Vera Celeste se demitiu.

As Indústrias Reunidas Graça-Pombo nunca mais ganharam prêmios na área de recursos humanos. Na verdade, o pêndulo passou para o lado oposto. A empresa tornou-se conhecida como financeiramente bem sucedida mas onde os profissionais eram tratados com frieza funcional, embora bem remunerados.

Quanto a Vera Celeste, percebeu a oportunidade de explorar um nicho de mercado até então inusitado. Abriu um spa para funcionários emocionalmente carentes e ganhou muito dinheiro. Hoje tem uma rede de franchise espalhada por todo o País, com escritórios na Bolívia e Equador. Com base em seu background educacional e corporativo, é considerada autoridade em motivação e lazer coletivos e assina uma coluna sobre o assunto numa revista especializada.