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A MÃE DO EXECUTIVO

Dona Adelaide era uma senhora muito especial. Na vizinhança todos a respeitavam. Ou melhor, a temiam - inclusive os homens. Não só pela sua postura avantajada, a postura assustadora, mas principalmente pela voz tonitruante de sargento. E que, diga-se de passagem, acabou fazendo com que o próprio marido, um tipo franzino e de voz fininha, fugisse de casa com a vizinha, a tímida e desinteressante dona Lurdinha. Dizem que ele não agüentou tantos anos de tortura psicológica (e até física, comentou-se maldosamente na época...) No entanto, a enorme mulher, se humilhada com o desaparecimento do esposo, não passou recibo. Transferiu sua energia e vigor para a educação do filho Alfredinho. Tanto esforço materno se pagou. O menino se tornou Presidente de importante multinacional, sendo considerado um dos executivos mais bem-sucedidos (e pagos) do país, com direito a premiação de revista especializada e tudo o mais.  

Prata da casa, Alfredinho - mais tarde o austero Dr. Alfredo - nascera e se criara ali mesmo, na vizinhança. Mas agora, rico e famoso, pouco aparecia... Que ingratidão! Vivia apenas no glamour dos noticiários de negócios, e volta e meia posava em fotos das colunas sociais, cercado por mulheres sofisticadas e grã-finos sorridentes. Às vezes ele surgia na tevê falando coisas que deviam ser importantes, mas que ninguém do subúrbio entendia do que se tratava...

O padeiro, o quitandeiro, o jornaleiro e tantos outros que ainda estava vivos, embora já velhinhos, gostavam de recordar histórias do tempo em que Alfredinho era apenas um garoto de calças curtas, sempre agarrado às saias da mãe. Objeto de zombaria, como ocorre com gênios fora do habitat, o menino fora vítima constante de brincadeiras de mau gosto dos moleques do bairro (por sinal, os mesmos marmanjos que agora lamentavam o desaparecimento do querido Alfredinho e sua ingratidão com o passado). Gordinho, sardento, cabelo escovinha à moda militar, bermudas, camiseta sem mangas e boné, cara eternamente assustada, ele parecia sempre atemorizado. Medo, por exemplo, de levar uma surra de algum garoto escondido atrás das esquinas. Ou de ser atingido por uma bombinha anônima jogada aos seus pés ao cruzar uma rua do bairro. Mesmo assim, nem mesmo sua avançada miopia protegida por lentes grossas o impedia de ter sempre um livro à mão, na busca eterna pela sabedoria, como se não fizesse parte do mundo hostil à sua volta.

“Este menino vai longe! Que cara inteligente ele tem”, dizia para agradar dona Adelaide o açougueiro, seu Bonifácio. E apontava com a faca suja de sangue dos animais mortos aquele menino tímido. Grudado na mãe, o guri podia ser visto com o nariz à altura do balcão do açougue. Como que brincando com um quebra-cabeça mórbido, o garoto parecia reconstituir mentalmente o formato original dos animais abatidos, juntando entranhas, pedaços de carne e ossos expostos. 

“É, seu Bonifácio; Mas não pense que é fácil educar o Alfredinho! Como o pai, é muito complicado. Este pirralho tem gênio! Precisa ser criado com rédea curta! Se não fosse o chinelo, não sei como seria...” – respondia a mãe-megera, que com um simples olhar fazia o guri tremer e até urinar nas calças. 

Dona Adelaide fora muito dura com o filho enquanto possível. Jamais permitiu que o pequeno se divertisse – sozinho ou em grupo. Fez dele um esquisitão mal compreendido pela garotada da vizinhança. Todo o tempo do petiz era canalizado para o estudo. “O tempo urge”, dizia-lhe a mãe. Já adolescente, o rapaz espinhento jamais namorou. Primeiro, porque feioso, ninguém o queria. Depois, porque não havia alma feminina que aturasse o ciúme doentio de dona Adelaide, sempre atenta, metendo o nariz em tudo.

Sem marido e maiores afazeres (era enfermeira plantonista de hospital público) ela estava sinceramente convencida que fazia isto pelo bem de seu querido Alfredinho. Depois que o marido fugira de casa, o menino tornar-se o único homem por quem ela achava valer a pena se dedicar de corpo e alma.

Afinal, Alfredinho cresceu e se desenvolveu. Sempre primeiro lugar na escola, sem demonstrar interesse por nada que não fossem os estudos, tornou-se por mérito estagiário de uma grande organização. Dedicação igual pelo trabalho nunca se viu. Sem hora para ir embora, trabalhava com afinco e devoção dias, noites, fins de semana, férias... Pouco a pouco foi ganhando segurança no que fazia e aprendendo a liderar os demais. O menino covarde, agora com um bigodinho e costeletas que pareciam esconder a timidez, tornara-se um cisne negro no mundo corporativo. Sempre disponibilizando energia para a empresa, tornou-se homem de confiança dos superiores e escalou com rapidez os degraus da hierarquia. Logo se tornou diretor e, tempos depois já era Vice-Presidente. Até que chegou ao alto da montanha. Agora era CEO! Enfrentava qualquer situação. Era herói, sem medo de ninguém ou nada.

Mas havia uma única exceção em sua ousadia. E que atendia pelo nome de mamãe. Não se sabe se por gratidão, hábito ou temor, só dona Adelaide tirava o Dr. Alfredo do seu inabalável equilíbrio. Quando ela telefonava, estivesse o filho onde estivesse, no meio de uma reunião com subordinados, superiores ou parceiros, largava tudo para atendê-la. Nesta hora sua voz grossa se transformava em miado sem energia. O olhar penetrante ficava submisso e inseguro. Comportava-se novamente como Alfredinho, o menino de calças curtas que levava cascudos da mãe toda vez que fazia algo errado.  

Com o tempo, os funcionários da multinacional começaram a conhecer o calcanhar de Aquiles do grande chefe. Todos se aproveitaram da fraqueza do Dr. Alfredo. Os bajuladores, rindo às suas costas, elogiavam a relação com a mãe. Os aproveitadores convidavam dona Adelaide para efemérides – de batizados a jubileus de ouro. Os concorrentes espalhavam a história, ridicularizando o inimigo. Mulheres interesseiras manipulavam Alfredo através de cortesias para a mãe, agora uma neutralizada velhinha que mal lembrava a matrona feroz do passado.

Pois se dona Adelaide foi o começo e o bem do filho, foi igualmente o seu fim e mal maior. As inicialmente tímidas gozações ao poderoso CEO em relação ao seu comportamento com a progenitora tornaram-se constantes. Chegou um momento em que a falta de respeito coletivo virou praga. Até que ninguém mais levava Alfredo a sério. De Dr. Alfredo, virou Alfredo. De Alfredo, regrediu à condição de Alfredinho. De líder, tornou-se palhaço. Sua função executiva ficou tão comprometida que a alta direção da multinacional viu-se obrigada a agir. Ofereceu ao representante-mor da organização no país um generoso programa de demissão voluntária que o afastou para bem longe dos muros empresariais.

De mãe e filho nunca mais se ouviu falar. Mudaram-se - para onde, ninguém sabe. De lá, nunca mandaram notícias. A última vez que foram vistos, Alfredo lembrava o Alfredinho da infância. Trajava bermudas, camisa sem manga e cabelo escovinha sob o boné, óculos grossos - sempre grudado à mãe. Até seu Bonifácio, o açougueiro, se comoveu: “Parece que o tempo voltou para trás” – comentou ele.