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O INFERNO ASTRAL DO GURU 

Amâncio era um sujeito realizado profissionalmente. Depois de tantos desencontros e desacertos pelos caminhos incertos do mundo corporativo, identificara seu nicho. De funcionário medíocre e que não deixou saudade entre os pares, tornara-se guru da administração. Fora um salto e tanto… Mas uma grande nódoa incomodava o sucesso. A sua vida pessoal deixava a desejar…

 Mas vamos falar primeiro no que deu certo. O jeito professoral e educado, a voz de barítono combinada a uma postura elegante e ligeiramente arrogante e a pinta de almofadinha-bem-sucedido garantiam a ele uma aura de credibilidade - antes mesmo que abrisse a boca!  

No início, Amâncio arriscara timidamente oferecer despretensiosos conselhos de carreira para colegas principiantes, muito mais com base no bom senso do que em algum princípio científico. Seus palpites com o tempo se transformaram em doutrinas. Embora os conceitos que pregava nunca tivessem sido testados, o público-alvo jamais reclamou. Sua audiência era constituída geralmente por seres corporativos em crise – alguns até em estado terminal. Era gente descrente do mundo empresarial em busca de milagre que resgatasse a fé, amor próprio e interesse pela carreira. Eram vítimas fáceis de malogro, suicidas profissionais em busca de esparrelas de auto-ajuda. Queriam e precisavam ser enganados por algum conselheiro de plantão. E já que havia público, havia guru.  

Os cabelos brancos e o porte sênior ajudaram Amâncio a atingir novos segmentos. Com o tempo, a clientela se sofisticou. Ele passou a fazer apresentações executivas à domicilio. Eram palestras personalizadas, apresentadas em sofisticadas salas de reunião das corporações de qualquer ponto do território. Costumava ser ouvido tanto por ativos mandatários como pelos respectivos e passivos séquitos.  

A experiência mostrou a Amâncio que, muito mais importante que conteúdo, o que interessava era a forma como se comportava enquanto transmitia as suas mensagens. Combinando o jeitão de doutor-sabe-tudo com pitadas de humor, ironia e alguma crítica selvagem a teorias administrativas em voga, suas palestras tornaram-se sucesso retumbante. Cada vez mais suas palavras caiam como luva no teatro criado para entreter entediados executivos em busca de emoção fora da rotina de trabalho sem graça - desde que pago pelos cofres corporativos.

 Amâncio percebera muito cedo que ninguém se aprofundava demais nas suas preleções. Quanto mais ele navegava pelo lugar comum e chavões, mais sucesso assegurava. Todos se identificavam com o óbvio, tudo o que não fizesse pensar demais. Assim, como que ligava um piloto automático, enquanto entoava um discurso treinado exaustivamente à frente do espelho e testado centenas de vezes perante platéias de todo tipo. Enquanto falava, sua mente viajava para longe dali. Pensava nos problemas domésticos. Ah, se os ouvintes conhecessem suas dificuldades pessoais, perderia o prestígio acumulado na carreira de guru …

 Não que os ouvintes prestassem atenção ou se interessassem por sua vida. A maioria estava mais compenetrada em rabiscos indecifráveis sobre blocos de anotações que inevitavelmente terminariam em latas de lixo daquelas mesmas salas. Mesmo assim, contraditoriamente, Amâncio terminava as palestras cercado de interessados em obter seu cartão de visitas e autógrafo para o livro que escrevera sobre o assunto – claro que à venda no local. Era comum alguns pedirem, ali mesmo, conselhos de como agir em situações que estavam vivendo em suas empresas ou vida pessoal.  

Apesar dos pesares, Amâncio se sentia envaidecido com a efêmera fama. O momento que assinalava o fim das palestras era o seu momento de glória. Não admitia, mas estava viciado em palmas e adulação. Precisava de gente pedindo conselhos como uma planta busca luz. E tinha uma boa razão para isto.  

O grande segredo de Amâncio começava a se revelar cada vez que deixava a ribalta corporativa. Ao sair de cena, o mundo colorido das palestras se metamorfoseava em cinzento e soturno. Dava arrepios pensar no assunto...  

Amâncio, um bem sucedido vendedor de receitas de felicidade, era um infeliz. Um desastre na vida pessoal. Admirado e invejado no trabalho, era na intimidade um perdedor. E nada podia fazer. Afinal, tinha uma imagem pública a zelar. 

O casamento equivocado fora o começo de tudo. Solteirão solitário, carente de amores e amigos, vivia em quartos de hotel por causa de suas intermináveis viagens de trabalho. Onde existisse uma empresa, nos mais longínquos recantos, lá estava Amâncio com sua apresentação padrão sobre felicidade corporativa. As palmas o alimentam por alguns minutos, mas funcionavam como um fast food para o ego. Logo depois, já vinha a fome. Sozinho, assistia programas de televisão onde pessoas se beijavam e se acariciavam enquanto ele… bem, ele mandava buscar sopa e salada pelo room service. Barriga cheia e espírito vazio, o problema ia se agravando. Custava a dormir. Rolava sobre o travesseiro vira-lata de quarto de hotel, sem dono e sem personalidade.

Belinha fora a sua redenção. Presença tímida e inexpressiva no meio da platéia, ela o cativara pela persistência. Mandava para ele bilhetes delicados, ora acompanhados de flores, ora regalos ingênuos ou utilitários, como uma vitamina, uma marmelada, uma gravata. Um dia fizeram contato. Carência ou falta de opção, a relação cresceu e se desenvolveu. Ela prometeu ser companheira, viajar com ele, complementar sua vida. Casaram-se.

 Nada disto aconteceu. Belinha se transformou após o matrimônio. De anjo virou megera. Cobrou filho para fazer companhia à solidão. Ao invés de um, tiveram três. Nestas condições, não podia mais viajar com Amâncio. Compraram casa e fixaram residência. De lá, nunca mais saíram Belinha, os rebentos e a mãe viúva (que veio passar um fim de semana e ficou para sempre). E assim, de solução, Belinha se tornou problema. Até que se separaram.

 E esta era a sina secreta de Amâncio. Enquanto guru empresarial, ajudava platéias anônimas e remotas a alcançar desenvolvimento pessoal, emocional ou profissional. Enquanto ser humano, ruminava sua infelicidade pessoal. Piloto automático ligado durante as palestras, sonhava sempre acordado por dias melhores. Ansioso, não via a hora de terminar a sessão e voltar para um quarto de hotel qualquer. Ali, na solidão anônima, engolia sopa e salada de room service. Depois, na tevê, via pessoas se beijarem e trocarem caricias. E ele aprendera que felicidade para ele era ser feliz através dos outros. Pensando bem, a ficção era muito melhor que a realidade...