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A incrível história da empresa que se tercerizou
Altamiro Barbosa tinha muito orgulho de sua empresa. Afinal, ali estava retratada a sua própria vida. Começara do nada, há meio século, com um pequeno escritório numa zona decadente da cidade e que hoje nem mais existia. Ao longo dos anos, a humilde e inexpressiva Altamiro Barbosa Comercia. - administrada por ele próprio a sua incansável e fiel (até os últimos dias) mulher Amélia Maria - se transformara no poderoso Grupo ABC, com negócios em todas as regiões.
Hoje, ninguém lembra mais do nome do fundador, escondido atrás da sigla. É que a ABC passou por milionário programa de rejuvenescimento de marca - uma espécie de spa corporativo implantado por uma multinacional de comunicação especializada no assunto. Esta foi apenas mais uma das inúmeras idéias do querido neto único do proprietário. Altamirinho, como era conhecido, veio trabalhar na empresa tão logo completou o MBA, depois de um curso de administração de empresas. O rapaz, conforme tentou explicar ao avô, queria acelerar o processo de modernização da empresa, visando prepará-la para a iminente competição internacional, diante das forças da globalização.
Seu Altamiro, já então um velhinho enrugado e insignificante que mal lembrava o jeito de galã de cinema mudo de cinqüenta anos atrás, não entendia bem o que estava acontecendo com sua empresa. E nem queria saber sobre isto. Há muito desistira de acompanhar a evolução da tecnologia ou os avanços da gestão organizacional. Não tinha a menor idéia nem interesse em saber o que significava esta tal da globalização… Nesta altura de sua enorme existência, contentava-se em estar vivo, por si uma imensa vitória. Estava motivado muito mais em conhecer com antecedência os mistérios do universo que realizar negócios globais…
Assim, como se tivesse dado a Altamirinho mais um brinquedo de luxo, “deixava o menino se divertir” com suas novas experiências corporativas. Tinha enorme prazer em ver o neto se distrair com a gestão da ABC - como se fosse uma espécie de laboratório do pequeno químico, ou do engenheiro mirim, ou tantos outros jogos que presenteara ao petiz durante toda sua existência…
O fundador tinha orgulho da auto-suficiência da empresa que construíra. Costumava contar que tudo era produzido “na casa” – como gostava de se referir à sua firma. Até mesmo os clips dos escritórios, brincava! E ele não estava exagerando muito… Um pequeno exército de empregados garantia que toda atividade, direta ou indiretamente associada ao negócio, fosse gerada ali. Por trás desta política empresarial, conviviam dois objetivos. Um, o nobre propósito de gerar o máximo de empregos. E dois, contar com um pequeno império de serviçais que dava a Altamiro Barbosa o agradável sabor de poder divino. E, claro, a sensação de imortalidade que tanto o interessava.
Como na maioria das empresas familiares, não haviam rígidas fronteiras para determinar os limites de propriedade entre o que era empresa e o que era bem pessoal. E esta máxima se aplicava também ao corpo funcional da ABC. Assim, marceneiros construíam e reformavam os móveis da empresa – mas os das residências também. Secretárias cuidavam dos compromissos profissionais do presidente e diretores, mas também da agenda pessoal dos familiares. Como marcar manicure para a madame, comprar um presente para o casamento da filha da comadre ou localizar um mestre em filosofia indiana para solucionar um problema de identidade de uma prima em crise. Cozinheiras, copeiros e garçons preparavam e serviam refeições e quitutes cujas matérias primas provinham das fazendas da organização. Mas, sempre que requisitados, cuidavam com igual dedicação e zelo de festas de aniversário infantis ou eventos de família – já que estes serviçais podiam ser generosamente “emprestados” pelo patrão a parentes e amigos em ocasiões especiais.
É preciso ressaltar que o sistema era democrático, sem privilégios a categorias profissionais da organização. Os princípios se aplicavam tanto a mecânicos que consertavam veículos, geladeiras, eletrodomésticos ou aparelhos pertencentes aos negócios ou uso doméstico quanto a contadores, gerentes, jardineiros, engenheiros, faxineiros, advogados, pintores, médicos ou motoristas.
Quando assumiu a ABC, Altamirinho carregou com ele um trio constituído pelos mais brilhantes ex-colegas do MBA, contratados a peso em ouro. Formou-se quase que um conselho de guerra para colocar em ordem aquela “promiscuidade em forma de empresa”, como definiu um dos três jovens gestores.
Poucos meses depois, criavam-se procedimentos, protocolos, processos, instruções, manuais, normas e todo tipo de formalidade com o objetivo de estabelecer uma barreira funcional da empresa com a casa. Mas na prática as regras eram continuamente desobedecidas. É que tanto empregados como familiares estavam viciados no velho sistema e se recusavam a aceitar a nova ordem administrativa.
Diante do impasse, o trio optou por uma terceirização radical. Da noite para o dia, dois terços da força de trabalho da ABC foram dispensados e substituídos por prestadores de serviços externos. Seguindo avançados preceitos de administração de negócios, os consultores mantiveram nos quadros apenas funcionários indispensáveis ao core business. Não fazia sentido ter na folha de pagamentos quem não contribuísse diretamente para o resultado final do negócio.
Bem que oponentes tentaram convencer o fundador a intervir. Mas o velhinho se recusou a contrariar o neto. Estava mais interessado numa seita milenar que garantia contato contínuo entre mortos com os vivos sem intermediários.
Animado com o apoio implícito, numa segunda etapa do plano, o trio concluiu que áreas como finanças, recursos humanos, jurídica, administração, produção e vendas podiam ser entregues a empresas especializadas, reduzindo assim custos e energias internas. O objetivo era se concentrar no cerne do negócio. Com isto, mais dois terços do grupo restante foi dispensado. Mesmo diante deste fato, o fundador decidiu manter-se à margem do processo.
Agora, o grupo via-se diante de novo dilema. Pensando bem, seria possível também terceirizar o core business da empresa. Afinal, mediante um contrato de gestão com cláusula de sucesso, não fazia sentido alguma organização externa especializada assumir os negócios? Certamente um agente não tão envolvido com a família administraria a ABC de forma mais eficiente e produtiva. O importante era preservar a marca, que era onde residia o verdadeiro valor da empresa.
Infelizmente, o processo de reengenharia da ABC teve que ser interrompido abruptamente. É que o velho Altamiro Barbosa decidiu morrer. Mas a perda do presidente não teve maiores conseqüências. A empresa, naquela fase dos acontecimentos, só existia no papel. Foi quando Altamirinho teve um grande insight: percebeu que a ausência de um dirigente não fazia diferença! Assim, uma vez pagas indenizações e direitos sobre resultados, a ABC se desfez…
A marca – valiosíssima! - continua até hoje em poder da família, aguardando melhores dias para retornar ao mercado sob a forma de algum produto ou serviço ainda não determinado. Quem sabe, pensam os herdeiros, alguma multinacional em busca de novos mercados, não se interessa por uma fusão ou aquisição?