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O EXECUTIVO GROSSO
Era uma vez um executivo grosseiro chamado Carlão. Ou melhor, era uma vez um sujeito mal educado chamado Carlão, que se tornou um bem sucedido executivo. Do nada, chegara ao topo graças a uma bem sucedida carreira na sua especialização, combinado à oportunidade e sorte. O problema é que a sua educação pessoal não evoluiu na mesma velocidade meteórica de sua carreira.
Carlão era um bom sujeito. Nascera numa cidadezinha do interior perdida no mapa. Sempre foi muito estudioso e esforçado, dentro do possível naquele fim de mundo. Leia o que diz dele a sua primeira professora primária, a dona Margarida:
“ O Carlinhos era formidável. Sempre trazia uma maçã pra mim comer. Enquanto os coleguinhas jogavam pelada, ele ficava na escola lendo umas revistas e livros que nunca entendi direito. Era sobre uns tais de bites e baites, sobre maquetingui, uns trens que nunca soube do que tratavam. Mas hoje vejo que ele estava certo, pois é o orgulho da nossa cidade “
O garoto cresceu e apareceu. De Carlinhos pra Carlão foi um pulo. Ainda nos bancos escolares, conheceu Arimar, a coleguinha de turma. O nome da menina era uma fusão do nome dos pais, Ariovaldo e Maria do Socorro. Se você não gostou do nome Arimar, veja como se chamavam os irmãozinhos dela, frutos de outras combinações de nomes paternas: Marivaldo, Socorrinho e Valdoméia.
Desde crianças, Carlão e Arimar se interessaram um pelo outro. Todos diziam que um dia iam se casar. Já debutante, Arimar foi escolhida Miss Primavera, o concurso mais disputado pelas moças bonitas da região. Foi quando Carlão, nesta altura já um técnico formado, decidiu pedí-la em casamento.
“ Fui contra esta união desde o começo” - recorda o pai de Carlão. “Sempre disse para o meu filho: cuidado, Carlão, beleza de hoje não põe a mesa de amanhã. Olha pra dona Maria do Socorro, a mãe da moça. Está cada dia mais gorda, parece uma baleia. Daqui há alguns anos você vai descobrir que a Arimar ficou igualzinha. Tal mãe, tal filha. Ele não me ouviu. Aí deu no que deu...”
Resumo da ópera: Carlão casou com Arimar. Tiveram quatro filhos, que ele mal teve tempo de ver crescer. Pudera! Trabalhava dezoito horas por dia, inclusive fins de semana, feriados e férias. Nesta época já começara sua carreira numa multinacional que inaugurara uma fábrica moderníssima na cidade. Ele passou a investir todo o seu tempo em especialização técnica e no idioma inglês.
Deu certo. Alguns anos depois, foi mandado para os Estados Unidos com a família, para acelerar o desenvolvimento profissional. Moraram cinco anos numa cidadezinha do interior americano onde a empresa tinha uma importante planta. Era daqueles lugares que ninguém consegue pronunciar o nome, sabe onde fica nem está interessado em saber. Dali, Carlão voltou um executivo pronto para entrar em ação. Anos depois, foi nomeado gerente geral da subsidiária brasileira.
“ Foram os melhores anos de nossas vidas - conta Arimar, ex-esposa de Carlão e atualmente uma senhora gorducha e bonachona. “Se soubesse o que ia acontecer com o casamento, não teria voltado de lá nunca mais. Aquele lugar era sensacional. Igualzinho à nossa cidade natal, com a diferença que todos de lá falavam inglês. As criancinhas, dava gosto de ver, tudo lourinho de olhos azuis, parecia até cinema! E o supermercado, que maravilha, só vendia coisas importadas. Imagine que até o alface era americano!”
Carlão até se esforçou para manter o casamento. Mas a diferença entre ele e Arimar estava se acentuando a cada dia. Ela continuava amuada, um bicho do mato, só pensava em cuidar da casa e das crianças. Com o dinheiro já jorrando na conta bancária, ele precisava da esposa em novas funções sociais. Mas Arimar se recusava até a se desfazer do fusquinha velho. Continuava a se vestir como uma jeca. Era completamente viciada em revistas de fofoca e prisioneira de novelas de tevê. Resultado: ela não conseguia mais acompanhá-lo em público. Só dava vexame. E o pior: a beleza sumira. Na nova Arimar cabiam facilmente três das antigas. Cada delicada curva do corpo que outrora o deliciara agora se transformara em autoestrada de quatro pistas! Bem que o pai de Carlão avisara...
Por sua vez, Carlão se mantinha esbelto. Soubera como ninguém fazer uso do dinheiro que ganhara. Primeiro, comprara um daqueles carros esportes japonêses que jogador de futebol tanto ama. Trajava os ternos mais caros e cheios de bossas possíveis, sempre combinados com camisas, gravatas, meias e sapatos multicores e de gosto duvidoso. Não passava um dia sem fumar charutos cubanos legítimos. Uísque e vinhos, escolhia pelo maior preço.
Frequentava restaurantes sofisticados; Tinha uma fórmula infalível para não fazer feio à mesa. Sempre copiava as maneiras do acompanhante. Se o sujeito partia o pãozinho e colocava no prato de apoio, fazia igual. Na pior das hipóteses, podia cometer os gafes do outro. Isto trazia ao companheiro de mesa uma inexplicável sensação de cumplicidade com Carlão, pois mesmo que inconscientemente todos gostam de se sentir imitados. Na hora dos pedidos, Carlão pedia a recomendação do maitre. O problema é que por vezes não sabia o que ia comer até a refeição ser servida. Ás vezes odiava a comida escolhida, mas este era o preço a pagar.
Já separado, precisa arranjar rapidamente uma nova mulher. Além de sentir-se só, faltava uma companhia feminina para as recepções e eventos sociais. Enfim, buscava uma garota bonita e vistosa que combinasse com o carro importado.
“Quase tive um troço naquela noite” - recorda, entre risos, Sheila Magra, nome falso de uma modelo com quem Carlão chegou a sair. “Fui apresentado a ele pelo diretor da agência de propaganda onde estava fazendo um trabalho para uma campanha de shampu. No dia seguinte, ele me convidou para jantar. Veio num carrão branco importado típico de emergente social. Na hora que ouvi a música caipira americana que estava tocando ao brados naquele carro, percebi o meu erro. Ele estava vestido que nem um palhaço, multicolorido, nada combinando com nada. E nem era carnaval! O interior do carro parecia terreiro de ubanda: tinha cheiro e fumaceira de charuto por todo lado. Nem o ar condicionado dava conta. Quando percebi a situação, menti que perdera a fome. Afinal, consegui convencê-lo a comer no McDonalds.”
Na vida profissional, onde impera a lei do mais forte, a falta de refinamento de Carlão passou a ser usada como vantagem competitiva para os concorrentes.
“ Uma ocasião ele tentou se candidatar a Presidente de nossa associação de classe. Os amigos inventaram um almoço de homenagem a ele e convidaram autoridades, empresários e imprensa” - relata às gargalhadas um incógnito empresário concorrente. “A gente subornou o maitre, que recomendou ao Carlão um prato impossível de comer: alcachofras de entrada, codorna com osso acompanhada de batata palha como prato principal, e caqui mole como sobremesa. O sujeito parecia orangotango em loja de porcelana. Era de matar de rir. Para piorar, no final ele resolveu fumar um charuto. Os frequentadores do restaurante começaram a reclamar daquela fumaceira. Aí, ele primeiro tentou apagou o charuto no prato de sobremesa e depois o mergulhou no copo de água mineral francesa. A sua candidatura se afogou ali mesmo, junto com o charuto!”
Enfim, Carlão chegara a uma encruzilhada. Entendeu que a vida profissional estava atrelada ao seu desenvolvimento estético, algo que nunca entendera nem levara a sério. Passou a frequentar a sessão de autoajuda das livrarias, procurando ali a resposta de suas angústias. Foi quando uma noite percebeu que a livraria estava cheia de gente. Era uma noite de autógrafos de um livro sobre etiqueta e boas maneiras para executivos. A autora, uma tal de Marilu Saboia, estava lá. Era uma senhora amatronada, destas quatrocentonas decadentes, aliás como ela própria. Tinha pelo menos mais uns dez anos que ele. Leu aquele monte de baboseiras naquela noite mesmo. No dia seguinte, teve um insight.
Carlão procurou Marilu e propôs uma aliança estratégica em forma de casamento. Ela entrava com a etiqueta. Ele, com o dinheiro. Juntos, ganhariam o mundo. Não deu outra. Hoje, ele é um respeitável membro da comunidade de negócios. Já recebeu as mais altas honrarias de governos e entidades. Ela, por sua vez, voltou a brilhar na sociedade. Os dois, sempre vistos em público apaixonados um pelo outro, alimentam constantemente as colunas sociais. Unanimamente, são reconhecidos como sinônimo de refinamento, bom gosto e categoria.