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O Gringo que veio de longe

Desde o dia que chegou ao país, Tom sempre trajou no trabalho um terno escuro que contrastava com a sua clara pele desacostumada do sol forte. O que lhe valeu, embora pelas costas, o apelido de urubu do norte. Os óculos escuros escondiam olhos muito azuis que pareciam continuamente ressentidos da impiedosa luz tropical. Embora ocupasse o mais importante cargo na hierarquia na sucursal da organização, mal se comunicava com os demais associados. Uns achavam que era por timidez. Outros diziam que era por pura arrogância.

 O fato é que a falta de adestramento naquela exótica e impossível língua local parecia ser o principal fator contributivo ao distanciamento de Tom com os funcionários da sucursal. Nos inúmeros anos de presença no país, apesar das tentativas - embora jamais tenha se esforçado em demasia – chegou a domou as palavras daquele maldito e inútil idioma. Caríssimos professores particulares custeados pela corporação para acelerar o progresso no aprendizado da fala do país resultaram em pouco, quase nenhum, resultado.

 Uma série de fatores contribuía para que Tom não ultrapassasse a quase impossível barreira da comunicação. Primeiro, porque vivia cercado de outros poucos compatriotas, muitos expatriados como ele ou colegas de trabalho na subsidiária. Assim, Tom criou um oásis de relacionamento à parte, um faz-de-conta comunitário onde o idioma natal com outros concidadãos tornou-se a única maneira viável de se comunicar.

 Segundo, porque quando chegava em casa, Mary, a mulher, os dois filhos e até Ulman, o husky siberiano que havia importado junto com a família, o cercavam com palavras, latidos e carências afetivas. Estavam angustiados com o isolamento forçado a que eram submetidos durante o dia. (Tudo começara quando a segurança da corporação enfatizara os riscos do país e a necessidade de se proteger dos riscos daquela sociedade quase primitiva. Assim, nem Tom nem seus afetos imediatos apareciam em público, pois se sentiam continuamente sob risco imaginários de assaltos ou seqüestros). A chegada de Tom à sua casa era, na verdade, a única oportunidade dos demais familiares colocarem em dia suas emoções perdidas. E, claro, isto sempre ocorria tendo como pano de fundo a língua natal, que todos dominavam (excetuando Ulman, o cachorro).

 Para completar a barreira linguística, sobressaia um terceiro e decisivo fator. Cada nativo empregado naquela multinacional tinha um hábito bizarro. Talvez preocupados em atravessar um atalho de carreira, se viam na obrigação de usar a língua original de Tom. Parecia coisa de criança: mal o viam, corriam atrás falando palavrinhas desconexas naquilo que imaginavam ser o idioma do líder. Tentavam demonstrar daquela forma uma boa vontade com o estrangeiro, traduzida em pseudo-adestramento lingüístico. Expressavam-se grotescamente e com visível dificuldade, através de gestos e expressões desconexas e que não faziam qualquer sentido para Tom. Ele limitava-se a sorrir de forma enigmática, deixando os interlocutores em dúvida se a mensagem fora ou não captada.

 Todo dia era sempre a mesma coisa: uma monótona, incansável e infrutífera tentativa coletiva de fazer bonito junto ao alienígena. Tom, por sua vez, mais que irritado, não entendia aquele enredo medíocre. Sentia-se constrangido em ver cena diária de tantos homens e mulheres maduros num ridículo exercício de bajulação. Na sua terra, avaliava, não era assim. Difícil ter respeito por aqueles prováveis chefes de família e líderes em seus mundos fora dos muros organizacionais... Eles pareciam violar conceitos tão vitais como dignidade e auto-estima, em troca de gestos e sorrisos de um sujeito tão desimportante como ele, que estava ali só para cumprir um dever corporativo... É, não dava mesmo para entender o comportamento dos profissionais nativos com os seus hábitos esquisitos e línguas incompreensíveis...

 No início Tom ainda se chocava com a situação. Inevitavelmente se imaginava um antigo conquistador que chegara aos silvícolas - só que agora travestidos em ternos e roupas caras. Aí, trocavam valores morais por espelhinhos e bugigangas que poderiam perfeitamente atender pelo nome de carreira...

 Até que um fenômeno começou a ocorrer. De tanto se sentir tratado como um deus, Tom começou a acreditar nisto de verdade. Pensando bem, por quê não? Afinal, ele falava uma língua superior, não dominada pelos nativos. À sua chegada, eles abandonavam o que faziam para admirá-lo, do momento de sua entrada até o desaparecimento... As mulheres se ofereciam de forma explícita, com sorrisos, seios e sensualidade, como virgens diante do altar de sacrifícios... Os homens, se não chegavam a tanto, com certeza derretiam-se em favores e gentilezas, abrindo casas, disponibilizando ativos e vida pessoal, numa busca frenética pela atenção do gringo...

 Definitivamente, estes terráqueos faziam coisas que não eram parte de sua rotina. Portanto, só podia ser por uma única razão: Ele - a divindade que veio de longe! Quem sabe Tom não teria dentro de si algum carisma inexplicável? Ou uma predestinação etérea que viajara com ele de sua terra natal para trazer alegria aos corações e mentes? Ou, ainda, ser o portador da oportunidade de crescimento profissional e felicidade pessoal aos mortais daquele local?

 Foi quando Tom começou a viver uma estranhíssima metamorfose. Ele não só passou a se comportar como deus, mas também incentivar os serviçais a adotar procedimentos corporativos de culto ao seu ego. Ou seja, uma espécie de cerimonial litúrgico de respeito e submissão ao chefe, coisa que certas organizações gostam de cultivar entre associados.

 Desta forma, a travessia de Tom pelas dependências da empresa tornou-se cada vez mais exclusiva e solitária. Do carro ao escritório, ele cruzava silenciosamente corredores desertos e elevadores privativos. Trancava-se em salas inacessíveis. Alimentava-se longe da vista de qualquer outro ser vivo. Para não se expor ao trânsito, sempre que possível viajava de helicópteros. Ou, para distâncias maiores, na primeira classe dos aviões, longe dos plebeus. Nos hotéis, vivia em andares executivos, destes de acesso restrito a privilegiados hóspedes. Seus sapatos, talvez com as solas mais limpas do universo, jamais voltaram a tocar o chão da rua. É que caminhava somente sobre tapetes estendidos magicamente em seu caminho. Estes indícios de superioridade serviam para alimentar ainda mais a percepção de que ele era realmente um tipo de deus qualquer.  

Aprendeu a comandar à distância, via computador, recebendo e enviando e-mails. Sua correspondência passou a ter o poder de vida e morte. Este comportamento enigmático e invisível tornou-se fonte de medo junto aos empregados. Na calada da noite, eletronicamente, poderiam estar sendo selados destinos, processos, fusões, contratações, aquisições, demissões... Se a presença de Tom tornou-se raridade, a sua voz também ausente só era ouvida através de telefonemas. Até as reuniões agora só ocorriam por conference calls. Nas demais situações operacionais, ele não dizia: mandava dizer! Fosse pela secretária ou computador.

 Como na vida, também nas empresas o tempo tem a capacidade de transformar comportamentos excêntricos em lendas. No caso de Tom, os mais antigos diziam que estava ausente, que já havia regressado ao país de origem, que de lá comandava a operação da subsidiária. Os mais jovens, talvez porque nunca o haviam visto, duvidavam até da sua existência...

 Em seu isolamento divino, um dia Tom decidiu deixar um legado para o futuro. Passou a registrar a sua visão da empresa, definindo objetivos, missão, credos e até a cultura organizacional. Também saíram de sua cabeça procedimentos completos e modelos que vislumbrava para os empregados alcançarem o paraíso do sucesso. Escreveu dias e noites sem parar. Até que um ano depois terminou a obra, que denominou de “O Livro do Sucesso”. Estava feliz. Ali residia tudo o que os mortais precisavam saber para dar continuidade à criação empresarial. Bastava seguir os ensinamentos ali contidos... embora fosse necessário que alguém traduzisse o material de sua versão original. Mas isto não seria problema. Com a outra Bíblia fora assim também...  

Um dia, Tom foi chamado de volta pela Matriz. Não se sabe se a alta direção da Sede estava preocupada com o comportamento estranho do seu representante no país ou foi apenas uma operação rotineira de recall executivo. Ele partiu com a família e nunca mais voltou. Foi substituído por outro gringo que tampouco dominava a língua local - mas em compensação era um sujeito sorridente e gentil.

 De Tom e de sua obra-máster, não mais se ouviu falar. O novo líder, embora não contasse com ideologias próprias, oferecia simpatia de sobra. Era um gringo bem mais pragmático. Tratou de implantar logo no dia seguinte a sistemática operacional impessoal desenvolvida e testada pela Matriz. Obrigou os nativos e os não-nativos a seguí-la à risca. O que, por sinal, foi atendido doce e graciosamente por todos os funcionários, sem questionamentos ou insubordinações