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EUNICE SEM SOBRENOME

Do seu passado, poucos ouviram falar. Ela veio de longe, de uma cidade que todos conhecem pelo nome mas ninguém se dá ao trabalho de ir até lá. Ela dizia pertencer a uma família ilustre, radicada no local há várias gerações e que com o tempo ganhara respeito e admiração da comunidade. Como ninguém nunca se interessou em conferir, ficou o dito pelo não dito. Assim, a sua história, conforme contada por ela própria, passou a ser a oficial. Era a repetida em todas as superficiais biografias, e que a imprensa gostava de mencionar a cada perfil que fazia sobre a agora executiva – legitimada graças à preguiça dos repórteres em investigar com precisão o seu passado.

Se a vida é realmente uma escola, Eunice sempre foi - justiça seja feita! - uma excelente aluna. Sim, ela se chamava Eunice de Souza, um nome bastante comum. E que não chamaria a atenção, assim como a sua franzina dona, se não fosse uma sucessão de eventos combinados ao senso de oportunidade.

Sua mais importante lição de vida – e a razão principal do sucesso – foi entender que a versão é muitíssimo mais importante que o fato em si. E que se não existem dados glamurosos, é preciso inventá-los, com criatividade e fantasia. E que quanto mais difícil é averiguar uma informação, maiores as probabilidades que ela se transforme em verdade absoluta. E que para se tornar líder é indispensável oferecer um passado que todos queiram acreditar e admirar, desenhado com precisão cartesiana, sem ambigüidades ou espaços vazios. E, finalmente, que o melhor antídoto para o excesso de perguntas invasivas é o silêncio e a discrição na vida pessoal - que sempre serão confundidas como zelo louvável pela privacidade. Eunice acreditava que só tolos e deslumbrados falam em demasia, mostram a casa, a cara e o seu mundo particular. Mistérios são adorados. Tagarelas, desprezados.

Pode parecer pouco, mas esta filosofia de vida conseguiu alavancar a carreira de Eunice a níveis jamais imaginados. Moça simples, fisicamente inexpressiva e despreparada, ela somava à sua desvantagem o fato de ter nascido fora dos grandes centros econômicos e financeiros do país. Se não fosse a obstinação cega e lealdade total aos seus dogmas, o máximo que poderia esperar da vida era a solteirice ou o casamento com um velho careca e barrigudo do local. E, talvez, quem sabe, um emprego público ou um cargo de confiança assegurado por algum padrinho político de sua terra natal.

Mas não foi isto que aconteceu. Através do ensaio e erro, Eunice buscou vários caminhos e identificou os melhores. O primeiro acerto foi afinal deixar sua cidade, onde nunca chegou a passar de gerente de boutique de grã-fina. Meteu-se com cara e coragem numa capital de peso. Nada tinha a perder.

Depois tentativas equivocadas, percebeu que trabalhar para o governo, apesar de todos os reconhecidos problemas, ainda era o melhor atalho profissional para superar as suas condições desvantajosas. Ao minar talentos e destruir expectativas, empregos públicos conseguiam equalizar cidadãos a um denominador comum, com isto paradoxalmente oferecendo oportunidades iguais a todos – inclusive ela.

Assim, Eunice deixou de ser uma mera interiorana em busca de luz e fama. Transformou-se pouco a pouco em reconhecida burocrata qualificada, que fazia parte do quadro funcional de uma destas centenas de agências estatais de fomento de desenvolvimento. Nestas condições, ela ditava regras, fechava ou abria portas ao empresariado em busca de novos investimentos, dava pareceres que faziam a diferença entre a aprovação ou a recusa de financiamentos vitais. Passou a inspirar respeito, até temor. Por isto começou a ser convidada para eventos, recepções, fins de semana paradisíacos, agendas sociais de destaque. Alimentava-se de caviar, ego, champagne, relacionamento, banquetes e fama. De tanto conviver com o poder, um dia viu-se perdidamente apaixonada por ele.

Mas havia um problema. Ao chegar em casa, a Cinderela virava Gata Borralheira. A triste realidade dos salários a lembrava o verdadeiro nome: Eunice de Souza. Que na pratica era a mesma coisa que simplesmente Eunice. Carecia de um sobrenome que lhe garantisse proteção. E projeção.

Ela avaliou o assunto. Concluiu que havia três maneiras de obter em curto prazo um sobrenome ilustre. O primeiro, descartado, teria sido nascer com um. O segundo seria casar-se com um deles. Este, devido ao jeito simplório e sem atrativos, diante da desleal concorrência feminina, oferecia chances mínimas. A terceira (por que não pensara nisto antes?) era associar-se a uma marca corporativa forte. Ser governo, além de gradativamente desprestigiado, era algo impessoal demais. Tinha que partir para a iniciativa privada. Quem sabe tornar-se a Eunice da IBM, a Eunice da Petrobrás, a Eunice da Microsoft, a Eunice do Pão de Açúcar, ou tantas outras corporações que emprestavam o prestígio que o seu insosso Souza não conseguia fornecer?

Usando a sua rede de influência (efêmera, mas efetiva) e informações privilegiadas proporcionadas pela estatal, Eunice conseguiu aproximar-se de uma empresa em sérias dificuldades financeiras. Se fosse capaz de salvar a organização, ganharia ao mesmo tempo reconhecimento no mercado e sobrenome ilustre. Por que não tentar, já que nada tinha a perder?

Os donos do negócio, decadentes empresários de uma época pré-globalização, onde o monopólio era o melhor modelo de marketing disponível no mercado, aceitaram a proposta, aliviados. Com suas fortunas particulares garantidas em contas bancárias internacionais, eles próprios tinham muito pouco a perder. Se desse certo, ótimo. Se a nova gestão desse errado, eles poderiam lavar as mãos.

Coincidência ou não, já que só um milagre salvaria a organização, e apesar de Eunice, a empresa faliu. Mas o seu plano dera certo. Ela se tornara famosa: perdera o anonimato, ganhara sobrenome, ampla visibilidade na mídia, reconhecimento cego dos pares e comunidade de negócios. Mas principalmente, criara raízes sólidas com o poder. Agora, fazia parte de um clube exclusivo e fechado, formado com outros empresários, cada um com o seu telhado de vidro, uns encobrindo as incompetências dos outros.

Feliz em fazer parte desta confraria, agora com sobrenome poderoso e irreversível, Eunice não teve qualquer problema para assumir um novo posto de mando em nova corporação. Não tinha medo. Sabia que se a próxima empreitada também falhasse, culparia o governo, os acionistas, o mercado, o negócio em si ou qualquer outro fator. Todos aceitariam, sem questionamentos. Logo, logo, surgiria uma próxima recolocação à altura de seu reconhecido talento. E depois outra, e mais outra. Afinal, Eunice jamais esquecera a primeira lição: mais que o fato, o que vale mesmo é a sua versão! E no seu caso, fato e versão haviam se tornado uma só coisa!