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A estatal que virou estatal

Epaminondas era destes sujeitos talhados a ser apenas mais um bem intencionado funcionário graduado a serviço de uma companhia de eletricidade estatal de um estado secundário da federação. Mas dois fatores transformaram radicalmente suas perspectivas de carreira.

O primeiro não dependeu propriamente dele. Simplesmente deu sorte de estar no lugar certo na hora certa. O segundo teve muito a ver com a sua, digamos, docilidade funcional. Se não fosse o temperamento conformista e contemporizador, preparado para engolir injustiças geradas pela política, acrescido da sua habilidade de sorrir para arbitrariedades, ele certamente não iria muito longe...

Epaminondas conseguia absorver com galhardia os mais kafkianos desmandos e intoleráveis disfuncionalidades administrativas de seu chefe - o sobrinho oportunista de um poderosíssimo senador da República que o indicara para o cargo. Ainda cedo, o funcionalmente deslocado arquiteto (ele nunca conseguiu ser aprovado no curso de engenharia, seu verdadeiro objetivo) aprendeu a engolir desaforos. Epaminondas o fazia com o mesmo ar blasé que adotava ao deglutir gordurosas lingüiças acompanhadas de cerveja – um pouco saudável hábito que lhe fez crescer a pança com a mesma velocidade com que aprendeu a conviver com os meandros da burocracia estatal...

Homem de poucas luzes, mas de enorme disposição para o trabalho, começou sua carreira em energia elétrica, além de suportar o sobrinho do senador, de forma bem pragmática. Metade do seu tempo funcional participava de cursos de especialização e a outra metade preenchia formulários inúteis.

Uma nota de esclarecimento: Epaminondas era da época em que os governos costumavam medir a qualidade de seus produtos e serviços não pela satisfação do consumidor, mas pela capacidade de apresentar resultados. Assim, expressivas estatísticas eram transformadas em belíssimos relatórios ou sofisticados comerciais premiados, bem ao gosto da vaidade do gestor da estatal e do dono da agência de publicidade responsável pela conta.

Nestes tempos da administração pública, o desempenho de um funcionário era avaliado pelo seu potencial para gerar reportes precisos e completados nos prazos. Nisto, Epaminondas era imbatível. Paradoxalmente, este fato o prejudicou bastante no início. Como o superior – uma nulidade com pedigree político - o considerava seu braço direito, não imaginava vê-lo crescer fora de sua esfera de atuação. A carreira que esperasse! Mas, em retribuição à fidelidade, o sobrinho do senador – até como prêmio de consolação! – sempre o designou para os melhores cursos de especialização, principalmente os realizados no exterior. Por conta disto, Epaminondas se tornou um anão em crescimento profissional, mas um gigante em capacitação técnica no campo da energia elétrica.

É preciso reconhecer que o serviço público, neste caso representado pelo sobrinho do senador, escreveu certo por linhas tortas. Se não houve qualquer intenção de planejar sua carreira – muito pelo contrário! – fatos fortuitos fizeram de Epaminondas um dos maiores especialistas na sua área. Não se sabe quando tudo começou, mas um dia ele já estava escrevendo artigos em publicações técnicas, fazendo conferências, dando entrevistas... Virou autoridade. Tornou-se conhecido e referência obrigatória no seu universo de atuação.

Um dia, o sobrinho do senador foi convidado a ocupar um cargo de comando numa das maiores estatais de energia elétrica do país. Como não podia deixar de ser, levou consigo o braço direito. Seis meses depois, para azar do sobrinho, morria o tio. Com ele, enterrou-se também a carreira pública do chefe de Epaminondas... Mas ele, nesta altura um funcionário respeitado, ficou por lá. Não se sabe se por falta de nome melhor, ou devido a uma destas fases em que os governos atravessam e ficam mais aguçados em relação à competência do seu corpo funcional, fizeram dele Presidente da empresa.

Foi a melhor época de sua vida. Era tratado como uma verdadeira autoridade. Com deferência. Carro com motorista. Respeito extremado. Sempre chamado de doutor. Os executivos batendo dia e noite à sua porta em busca de favores... Contava com todas as mordomias, uma alcatéia de puxa-sacos. Ganhava presentes – ele e a família - no aniversário e em todas as ocasiões. Portas travadas se abriam à sua chegada. Era sempre lembrado para convites sociais de toda natureza... Aquilo, sim, se chamava poder! Quem nunca teve, nem liga. Mas depois que experimenta, não larga! O diagnóstico era claríssimo: Epaminondas estava irremediavelmente viciado. Ele adorava se sentir o dono do mundo!

Um dia, veio a privatização. A empresa mudou para mãos particulares... Mas, para sua surpresa, ele foi junto! A missão que recebeu dos novos acionistas - um cartel de empresários e multinacionais, ambos pragmáticos e objetivos - foi curta e direta. Trazer para a organização eficiência e produtividade que virasse lucro com urgência e a qualquer custo. Ele precisava reverter o quadro, ouvir o tal do consumidor, trazer retorno aos investimentos. Para isto, contaria com as mais avançadas técnicas administrativas e consultorias. Dinheiro tampouco faltaria...

Meses depois, a empresa era vista como um exemplo de competência gerencial e bons resultados. Um corte radical do contingente e a otimização de recursos, combinados à disponibilidade de avançadas tecnologias transformaram a ex-estatal num modelo a ser seguido pelos concorrentes.

Mas algo andava terrivelmente errado no terreno pessoal. Epaminondas sentia-se infeliz! Vivia triste, cabisbaixo, acabrunhado, desmotivado. Tinha incontroláveis saudades dos tempos de estatal! Nunca mais fora tratado com a deferência de um dono do mundo... Agora, era muitíssimo bem remunerado. Recebia também todos os benefícios, recursos... No fundo, não passava de um reles empregado, uma engrenagem (importante, sem dúvida) de uma máquina... Apesar de tudo, era um simples mortal sem poderes absolutos de mando e desmando...

Queria voltar a ser feliz. Sabe o que fez? Resgatou o passado - pelo menos em seu entorno. Passo a passo, numa das mais surpreendentes reviravoltas que a privatização já teve notícia, ressuscitou, item a item, a velha escola administrativa pública. E assim, até onde sua vista imediata podia alcançar, criou um paraíso onde fingia que nada havia mudado... De um lado, a empresa prosseguiu a sua rota inexorável a caminho do lucro e da modernidade... Do outro, encastelado em sua torre, Epaminondas voltou a ser chamado de doutor – começando pelas quatro secretárias que passaram a atendê-lo.

Os formulários e as estatísticas regressaram. A burocracia também. Mas só para consumo próprio do mandatário. Neste faz-de-conta corporativo, as duas empresas – a nova e a antiga – conviveram com harmonia. Jamais ocorreram conflitos ou distúrbios funcionais gerados por esta dualidade... Pelo contrário: os resultados financeiros e operacionais, alardeados por lindos relatórios e belíssimos comerciais de tevê, ajudaram a transformar Epaminondas num ícone da administração. Por isto, recebeu inúmeras vezes o prêmio de Empresário do Ano - com direito a diploma, coquetel e tudo o mais que um grande líder faz jus.