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A ESTAGIÁRIA, O CHEFE E O BOY
Na véspera do primeiro dia de estágio, Dalila não dormiu. O coração pulava de emoção. Sentia um misto de medo e alegria que não lembrava ter vivido nem no seu momento mais importante, o primeiro beijo, e que não fazia tanto tempo…
A ex-menina, que acabara de domar com louvor as contradições típicas da adolescência, acreditava ter ultrapassado a fronteira que a separava do mundo adulto. E agora, sem explicação, vivia esta insônia ilógica! Não conseguia explicar o que acontecia… Quando pensava já ser senhora de seus sentimentos, eis que voltava a perder o domínio sobre si mesma. Parecia ter regredido às bases primitivas da criancice que pensara ter deixado para trás.
Do ponto de vista racional, Dalila não tinha razão para se sentir insegura. Carregava consigo os elementos do sucesso. Como mulher, estreava com ótimas chances. Se não era linda, tampouco podia ser classificada como feia. Sabia, e as primeiras experiências haviam provado, que seu charme e meiguice davam a ela vantagens competitivas na difícil relação com os homens. Profissionalmente, também tinha tudo para dar certo. Inteligente sem ser genial, boa aluna sem ser uma nerd, ousada sem ser arrogante, firme nas convicções sem ser teimosa, curiosa sem ser abelhuda, participativa sem ser pentelha, Dalila combinava com equilíbrio os pré-requisitos para o ingresso satisfatório no mundo dos negócios.
Pela parte dos pais, o que podia ser feito para preparar o futuro da moça havia sido cumprido, por vezes com muito sacrifício. Além de compartilhar com a filha os melhores princípios de educação e ética, haviam dado a ela a oportunidade de freqüentar os melhores colégios que o seu dinheiro permitira alcançar. Cursos complementares, como inglês e informática, combinados a outras atividades extra-curriculares, representavam o fruto de seus sonhos e o verdadeiro legado.
No entanto, na véspera de seu estágio, naquela noite insone, Dalila, pensava na vida. Sabia que estava entrando num mundo novo, onde os conceitos eram diferentes. Pelos relatos alarmistas e preocupantes dos precursores, seus amigos e colegas universitários, a vida corporativa era um outro planeta. Não bastavam os valores atuais, o background pessoal e a boa educação para dar certo. Era preciso algo mais. Só mesmo a sua vivência profissional, que se iniciaria no dia seguinte, poderia indicar o melhor caminho. Como artista antes da estréia, ela nada podia fazer a não ser confiar no seu talento e preparação para o grande dia. E também na sua capacidade pessoal de enfrentar situações adversas.
Não que Dalila estivesse equivocada em suas preocupações. Pelo contrário! A premonição não chegava aos pés da realidade. Começou a constatar ao conhecer o local de trabalho, se é possível classificar um almoxarifado sem janelas desta maneira. No pequeno cubículo cercado de prateleiras com caixas de papelão dentro das quais se depositavam documentos empoeirados, ela passou a dividir alguns ativos da organização com o office boy. Albino, um menino feio, magricela e humilde, apesar de todos os contras, era proprietário de um olhar inteligente que Dalila nunca soube explicar de onde vinha. No ambiente de trabalho, os dois se revezavam numa escrivaninha com as bordas carcomidas de cupim, um telefone obsoleto e defeituoso e uma cadeira de escritório com forro de espuma à mostra e uma das rodas faltantes - todos refugos de áreas mais nobres da empresa.
O acordo do estágio estabelecia uma relação direta com o diretor, Dr. Fernando, ao qual Dalila sequer foi apresentada na chegada, pois ele se encontrava muito ocupado. A situação se repetiu nos dias seguintes. Na prática, pela falta de tempo do executivo, o chefe real da estagiária passou a ser o Dr. Damião. Talvez um ícone no passado, a única razão para que este senhor agora senil, surdo e supérfluo (mas sempre sorridente) ser mantido na empresa era por se encontrar às portas da aposentadoria. Qualquer coisa que Dalila perguntava a ele recebia invariavelmente a resposta “não sei não, é melhor perguntar a outra pessoa”.
Ao mesmo tempo frustrada e preocupada, sem maiores afazeres, a moça encontrou em Albino, o office boy, o melhor companheiro e apoio. Observador e esperto, o rapaz forneceu informações valiosas sobre a empresa e seus ocupantes. Albino ajudou Dalila a conhecer os procedimentos e, mais importante, as peculiaridades e sutilezas não escritas. Com isto, garantiu a ela condições de sobrevivência na empresa e no relacionamento com funcionários e chefias, viabilizando sua presença naquele estranho mundo corporativo.
Cansada de tanta ambigüidade, Dalila resolveu dar um basta. Pediu espaço na agenda do Dr. Fernando para discutir o assunto. Finalmente foi atendida. Um bem vestido e vaidoso senhor com uns 40 anos, a olhou pela primeira vez. Na hora, a estagiária percebeu não estar sendo examinada funcionalmente, mas como mulher. A suspeita se confirmou segundos depois. Fernando a convidou para se conhecerem melhor, sem pressões de tempo, e discutirem sua carreira fora do expediente, na tranqüilidade de um happy hour. Desconcertada com a grosseira tentativa de assédio, ela só conseguiu balançar a cabeça e sair da sala do executivo. Foi consolada por Albino, que pelas circunstâncias veio a tornar-se a partir daquele momento o seu melhor confidente e amigo na empresa.
Na esperança de que o convite se esvaziasse pela falta de resposta, não voltou mais a procurar o executivo. Dias depois, foi chamada à sua sala para uma reunião da diretoria. Feliz, quem sabe agora teria oportunidade, ela se viu frente a frente com uma dúzia de empresários. Sem olhá-la, o Dr. Fernando pediu que Dalila trouxesse cafezinho para todos. Humilhada, a moça mal conteve as lágrimas. Era o início da retaliação. Se antes não tinha o que fazer, agora cabiam a ela atividades pouco nobres. Como completar ligações, pagar contas e gerenciar o mailing pessoal do chefe. Ou ser requisitada para um plantão desnecessário num feriado. Ou mesmo ser solicitada a pesquisar legislação fiscal complexa, encontrar documentos perdidos em arquivados há décadas ou levantar informações inúteis em repartições públicas repletas de filas intermináveis.
Passados dois meses, na certeza de encontrar a estagiária humilhada e com o orgulho próprio ferido, Fernando voltou a investir em novo convite para um encontro pessoal. Dalila recusou com determinação, sabendo que seus dias na empresa estavam contados. No mesmo dia, foi comunicada de sua dispensa através do Dr. Damião, o velhinho que pelo menos serviu para alguma coisa.
Enquanto juntava seus pertences, triste mas aliviada, Dalila olhou para Albino. O office boy mantinha o olhar fixo num ponto da parede, na impossibilidade de dizer alguma coisa para a amiga que se ia. Sem palavras, ela entendeu tudo. Com o coração apertado, Albino a via partir, levando junto os seus sonhos mais secretos e impossíveis… Ele imaginava um dia ser alguém, quem sabe tornar-se um motoboy bem sucedido… E aí, se tomasse coragem, ele ia convidá-la a sair com ele. Um gesto simples e puro, nada ofensivo. Apenas, com todo respeito e carinho… chamar para um sorvete, cafezinho ou cinema… E depois, quem sabe?