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ESPELHO, ESPELHO MEU…
(Existe alguém mais formidável do que eu?)

Irineu mal conseguiu dormir na véspera em que aquela revista de prestigio e grande circulação decidiu publicar a principal entrevista com ele, tendo direito a foto na capa e tudo o mais! Aquilo é que era sucesso em grande estilo, a real consagração de sua vida. Era a prova irrefutável de que ele vencera no mundo dos negócios e fora dele! Irineu - que viera do nada - era agora o rei do universo!

Curiosamente, ao invés de antecipar a inveja dos concorrentes que iriam se deparar com aquela afronta editorial, ele apenas voltou o seu pensamento para a mãe. Naquele dia, a velhinha iria explodir de felicidade e orgulho! Com a revista debaixo do braço, ela iria apontar a todos que encontrasse - vizinhos, amigos, parentes, comerciantes do bairro e até estranhos - a foto estampada do seu rebento na capa. E a seguir, diante do olhar de admiração dos interlocutores, diria: "Este é o Irineuzinho, o meu filho!" Ao imaginar a cena, o marmanjo teve vontade de chorar. Apesar do conhecido estilo frio e calculista no trato dos negócios, o executivo se derretia como manteiga quando pensava na amada progenitora…

Depois de um meticuloso asseio, olhou-se ainda nu no espelho do closet. Tirando a barriga, estava fisicamente apto para começar o grande Dia da Glória. Vestiu-se melhor que sempre. Estreou uma gravata comprada por uma fortuna há tempos em um duty free ("que aeroporto mesmo?") e que aguardava ocasião especial para ser inaugurada. Pois a data chegara. Era aqui e agora!

Estava tão feliz que nem quando sua esposa, num acidente caseiro, derramou café sobre a tal gravata, perdeu o humor. Inutilizada, a infeliz peça teve morte prematura e instantânea. Dali mesmo foi encaminhada à lixeira. Irineu tampouco se impacientou - uma característica tão sua no cotidiano do trabalho - quando a portaria do prédio onde morava o informou que a entrega da assinatura da revista que trazia a matéria que aguardava com ansiedade não ocorrera até o momento.

Olimpicamente, com fleuma de lorde inglês, dirigiu-se ao jornaleiro da esquina para comprar um exemplar. Soube que o reparte recebido da editora já se esgotara. Mas isto não o aborreceu. Ao contrário! Irineu sentiu-se inundado de alegria. Ser capa de uma edição vendida tão rapidamente era ótimo! Modéstia às favas, não era qualquer pretensão associar a sua reputação profissional e boa imagem pública a tiragens acima da média para aquele número da revista. Secretamente, babou-se de prazer com a idéia. Mas logo a seguir se recompôs. Uma postura de humildade, ainda mais num dia especial como aquele, era de bom tom. Não podia esquecer que o mundo odeia os arrogantes!

Depois de perambular por mais duas bancas, achou o que procurava. Que felicidade! Não sabia o que admirar primeiro na capa da revista: se a sua foto, explodindo soberana, colorida sobre todo o papel, ou o título provocativo, poderoso, aplicável a poucos semi-deuses dos negócios, típico dos desbravadores como ele! Localizou as páginas onde a matéria estava impressa. Tirando uma ou outra ironia da jornalista, que até dava mais credibilidade ao texto, não tinha do que se queixar. Precisava parabenizar o seu assessor de imprensa.

Ao chegar ao escritório, percebeu a diferença no ar. Logo na entrada, o porteiro da empresa terceirizada deu um "bom dia" que pareceu a Irineu especial, mais efusivo. Mas era apenas o começo. Um a um, empregados sorriam e o cumprimentavam. Viu-se general de tropa vitoriosa ao voltar da guerra, numa marcha triunfal pela cidade natal!

A sua secretária o esperava com uma relação interminável de telefonemas recebidos. Nas próximas horas, o telefone não parou de tocar. O e-mail de Irineu também pipocava com novas mensagens a cada minuto! Eram clientes e amigos de infância desaparecidos. Eram fornecedores oferecendo novas parcerias. Eram familiares. Eram desconhecidos e admiradores anônimos. Eram ex-namoradas tomadas de súbita recaída de paixão. Eram estudantes e professores universitários pedindo palestras. Eram dirigentes de associações de classe. Eram políticos oferecendo seus préstimos… Enfim, todo mundo estava ligando para ele!

 

Atendendo recomendação do Diretor de RH, mandou cópia da reportagem, com capa e tudo, para os cinco mil empregados da empresa. Por sugestão do Diretor de Marketing, fez a mesma coisa para os clientes. O Diretor de Suprimentos propôs ação semelhante para os fornecedores. E assim foi com os demais Diretores e seus públicos relevantes. Afinal, a cada cópia da matéria ocorreria um novo contato, inchando ainda mais o ego já super-ampliado de Irineu.

A certa altura, viciado na sensação de poder e reconhecimento, o executivo resolveu beber mais no néctar da popularidade. Cancelou seus compromissos e programou um dia de altíssima exposição pessoal. Primeiro, um almoço no restaurante da moda, onde personalidades se encontravam. Iria com um amigo, ele próprio uma personalidade. Depois, dedicaria a tarde a responder todos os telefonemas e e-mails com cumprimentos que chegassem. À noite, iria em um (dois, três, dez!) destes eventos empresariais que recebia convites diariamente. Finalmente, poderia comemorar a data com a mulher, os filhos e… a mãe, no restaurante mais exclusivo da cidade.

Assim se passou o dia de Irineu. Mas tarde da noite, depois da mais prolongada homenagem à auto-estima de sua existência, ele se viu acordo, na cama, rolando de um lado para outro. Sozinho nos pensamentos, não conseguia dormir. Sentia uma inexplicável sensação de tristeza. Mais que isto: uma terrível melancolia tomara conta dele.

Irineu se atormentava por uma questão simples, mas vital para ele. Tornara-se um ícone do sucesso, experimentando por um dia o ápice da adulação. E agora, que tudo terminara, como poderia sobreviver na manhã seguinte, quando todos voltassem a tratá-lo como um simples mortal?