Livro
O corretor de pessoas
Airton Sprinkler sempre foi um excelente vendedor. Desde criancinha conseguia façanhas comerciais que o tornaram memorável na vizinhança de subúrbio onde nasceu e cresceu. Não importa a idade que estivesse vivendo, ele inevitavelmente conseguia vender e comprar mercadorias pelo melhor preço, e sempre com condições a seu favor. Conforme amadurecia, através de transações bem sucedidas, o garoto ia substituindo os seus brinquedos infantis por outros mais juvenis e adequados aos seus novos interesses etários.
Assim, por exemplo, conseguiu fazer escambo de inocentes figurinhas da Disney por um canivete suíço, destes que a gente acha útil, mas não usa para nada. E o velocípede com os pneus já gastos de tanta quilometragem pelo quintal, por uma prancha de surfe praticamente nova, que pertencera a um adolescente interiorano que só vira o mar duas vezes. Mas o melhor negócio foi vender com ágio a sua coleção de Super Heróis para um sujeito que acabara que engravidar uma vizinha e por isto estava se casando às pressas. Explicou ao quase-pai que aquela seria uma oportunidade única de presentear o filho prestes a nascer com uma lembrança rara. O sujeito não só concordou com a transação como ainda ofereceu, como parte do pagamento, a sua coleção de revistas masculinas e que agora, no matrimônio, seria de pouquíssima serventia para ele - conforme Airton Sprinkler o convenceu. Ao comprar por atacado as publicações e comercializar no varejo para os meninos do bairro, o formidável mini-negociante conseguiu multiplicar seus lucros por valores astronômicos.
Tanto tino comercial valeu a Airton, quando nem completara 18 anos, a alcunha de “Rei dos Negócios”. Com o seu talento natural, Sprinkler acabou convidado a assumir a gerência do bazar da esquina, sem dúvida o mais importante daquele subúrbio esquecido pela cidade. Tempos depois, numa evolução natural, tornou-se corretor de imóveis, e aí iniciou uma carreira invejável. Todo mundo que queria se desfazer de um mico imobiliário fosse uma casa imprestável herdada de uma tia, um ponto de vendas inviável ou um terreno encalhado, sabia que nas mãos de Airton aquela pedra no sapato se transformava em ouro.
Airton provavelmente teria se tornado um destes prósperos incorporadores de periferia se não tivesse se apaixonado por Anaísa. Moça bonitinha (mas, de forma alguma, linda), criada no luxo, riqueza e mimos na zona mais abastada da cidade, fora parar naquele bairro devido a um acidente financeiro do pai, que o levara á bancarrota. Nunca se conformara com a nova situação. Fazia parte de uma família arruinada, sem dúvida, mas jamais perderia a pose aristocrática. Arrogante e de nariz empinado, Anaísa parecia estar fazendo um grande favor aos moradores daquele bairro ao permitir que partilhassem a sua companhia. Mas, num misto de vergonha e revolta, dizia a todos que era uma questão de tempo, pois um dia voltaria ao seu devido lugar, longe dali. No início, o próprio pai alimentara esta esperança, dando a impressão de que a crise era temporária. Mas o tempo demonstrou a realidade cruel das coisas, que caminharam exatamente ao contrário. A cada dia a família de Anaísa se empobrecia mais e mais...
Foi quando Airton cruzou o seu caminho. Viu nela, não arrogância e empáfia, mas uma oportunidade de ganhar status instantâneo. Precisava daquele pedigree perdido no subúrbio para sair dali e crescer profissionalmente. No início, ela o rechaçou, mas depois
também viu nele o talento para negócios, passaporte para viabilizar o seu maior projeto de vida. Queria a qualquer preço ir embora daquela comunidade e voltar – levando a família – para o lugar de onde viera (e de onde nunca deveria ter saído). Sim, casaram-se. Tempos depois estavam morando, o casal e a família da moça, num apartamento de três quartos de bairro classe média alta da Cidade.
Resolvido o primeiro problema, Anaísa resolveu enfrentar o segundo. Sentia-se terrivelmente incomodada com a profissão do marido. Para ela, corretor de imóveis não era atividade com status. Precisava se equiparar aos amigos do passado, todos agora profissionais liberais em ascensão. Era preciso encontrar uma fórmula que permitisse explorar o potencial nato de vendedor do marido. Mas ao mesmo tinha que identificar uma carreira nobre, socialmente aceita no meio que pretendia resgatar para sua proximidade. Foi quando uma amiga grãfina, agora executiva de sucesso, teve uma idéia. Que tal se Airton parasse de vender imóveis para vender gente? Afinal, com um pouco de verniz e postura adequada, dava para transformar o rapaz em headhunter - que, dizia a amiga, nada mais era que um corretor de talentos.
A sugestão, olhada assim a frio, parecia fora de propósito. Mas Anaísa queria muito readquirir o status perdido. Nada seria impossível, pois ambos – agora Airton também já estava gostando do sabor da escalada social - queriam um lugar ao sol no deslumbrante mundo novo que se abria à sua frente.
Anaísa começou reformando o guarda-roupa do marido. Desfez-se dos ternos do ex-corretor - onde predominavam o azul-pavão, o amarelo-mostarda e o verde-canário -, das camisas cor-de-rosa, das gravatas estampadas, dos mocassins de camurça, das inacreditáveis meias coloridas. Substituiu por uma indumentária sóbria e à prova de erros, modelo corporativo clássico, como ternos azuis-marinhos, camisas sempre brancas e gravatas discretíssimas, quase imperceptíveis. Era preciso transformar aquela arara imobiliária num condor empresarial.
No chamado traquejo social, Anaísa quase desistiu da idéia. À mesa, Airton era um desastre. Segurava os talheres como enxadas, comia de boca aberta, palitava dentes, desafivelava o cinto antes das refeições e não raro deixava escapar sons de toda a espécie por diversas saídas do corpo... Seria um trabalho impossível, coisa para um Hércules das boas maneiras – se existisse tal figura mitológica. Anaísa respirou fundo, pois queria muito. Queria demais. Foi em frente. Tempos depois, satisfeita, ela já podia avaliar os bons resultados. Ele estava preparado para enfrentar qualquer restaurante ou coquetel sem fazer feio. Nunca seria um homem totalmente refinado, pois o background do marido, Anaísa sabia bem, não era lá essas coisas... Na pior das hipóteses, Airton Sprinkler seria confundido (e aceito) como um executivo novo-rico, talvez um pouco excêntrico... Mas este tipo de gente os restaurantes da moda estão acostumados a receber, diariamente em doses cavalares. E aí, um a mais, um a menos, ninguém iria notar...
Airton, por seu lado, é preciso dar-lhe o crédito, fez enormes progressos. Aprendeu rapidamente a falar como um headhunter. Por sinal, a transição de discursos foi fácil. Para sua surpresa, era idêntico vender imóvel ou gente. Do lado da mercadoria / candidato, precisava dizer que o produto / profissional à sua frente não era lá estas coisas, que ia ser difícil passar adiante, que o mercado estava difícil, que havia muita concorrência, que era preciso baixar o preço... Do lado do comprador / empresa, tinha que dar a impressão contrária, até criar ansiedade. Para isto, seu speech incluía chamar a
atenção para os pontos fortes e esconder os fracos, dizer que o produto era raro e a oportunidade especial, que havia muitos interessados, que o preço era uma pechincha... Descobriu que até mesmo terminologias e expressões de ambos os campos, imobiliário e corporativo, eram semelhantes. Quer alguns exemplos?
- Antes ele dizia que a vista do local era panorâmica. Agora, que o candidato era um homem de visão abrangente;
- Antes, destacava que o imóvel era sólido e construído por uma firma de engenharia tradicional e de excelente reputação. Agora, oferecia um profissional com sólidos conhecimentos adquiridos em tradicionais escolas de ensino e com comprovada experiência, graças ao background adquirido em empresas de irretocável reputação;
- Antes, referia-se ao ótimo planejamento da planta do imóvel, que permitia amplo e racional aproveitamento da área útil. Agora, explicava que o plano de carreira do candidato trazia em si uma ampla e racional vantagem competitiva, numa feliz coincidência de propósitos com as metas da empresa, permitindo otimizar o tempo de adaptação e o de treinamento;
Airton Sprinkler não teve maiores dificuldades em se posicionar no mercado. Seus dotes de super-vendedor combinados ao recém-adquirido traquejo social abriram portas. Hoje, é um bem sucedido proprietário de uma das mais consagradas empresas de headhunters do país. Escreve coluna em uma revista de negócios - através de um ghostwriter, naturalmente – onde dá conselhos para executivos que querem fazer carreira. Ele e sua nova mulher Petrina, que pertence a uma tradicional família, aparecem com freqüência nos ambientes refinados e nas colunas sociais. Ambos são queridos e admirados por todos que o conhecem – executivos, autoridades e formadores de opinião em geral.
Quanto à Anaísa, sua ex-mulher, pouco se ouviu falar. Depois da separação, como nunca teve filhos, voltou a morar junto com os pais, por sinal no mesmo subúrbio onde conheceu Airton. Ali, tornou-se professora de boas maneiras. Nas horas vagas, dedica-se a importantes atividades de cunho filantrópico, mas infelizmente pouco divulgadas pela mídia.