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A confraria dos burocratas

Prezada dona Jandira,

Qualquer outra pessoa poderia pensar que eu fiquei louco. Menos a senhora, que me conhece há muito tempo e sabe que sou normal e muito sério. Afinal, sou eu, o Eustáquio, quem está enviando este documento! O mesmo Eustáquio que passou brilhantemente por tantos testes psicotécnicos e por um rigoroso processo seletivo. Foi a senhora mesmo quem me escolheu para trabalhar neste banco há menos de dez anos. E com louvor! Lembra de mim agora, dona Jandira?

Talvez a senhora não entenda porque estou escrevendo esta carta. Ou melhor, carta-testamento... Neste momento eles já me descobriram e estão se preparando para dar sumiço em mim. Um elevador pode despencar comigo dentro, num destes fins de semana... Ou posso levar um tiro num estacionamento deserto... Tudo será feito para parecer um destes corriqueiros assaltos fatais... Ou quem sabe um discreto envenenamento num restaurante, na água, num picolé?... Eles têm tantas maneiras para se livrar de um sujeito como eu, que sabe demais...

Dona Jandira, a senhora deve estar se perguntando porque escolhi logo a diretora de RH do banco para enviar esta carta. A seleção foi natural. Afinal, o seu trabalho não é zelar pelo bem estar do corpo funcional e assegurar a continuidade da cultura corporativa? Então pergunto: distúrbios que afetem o moral ou a produtividade individual ou do grupo não merecem a sua atenção? Pois é o caso.

Antes, peço a sua paciência. Mereço crédito e confiança por tudo o que fiz até hoje. Já ganhei tantos prêmios pela dedicação cega a este banco, tantos elogios pelo espírito de teamwork, tantos diplomas pelo esforço contínuo de integração à equipe, tantas camisetas e bonés por vestir a camisa... Então, por favor, leia esta carta até o final antes de tirar conclusões... Deixe-me relatar os fatos. Vou deixar de lado os adjetivos. Ficarei nos substantivos para sermos objetivos...

Vamos lá. Este banco corre sério perigo de vida. Há uma conspiração sinistra para destruí-lo. Existe uma confraria que se reúne há muito tempo e secretamente. Ela é formada por agentes treinados, mas transfigurados em inocentes funcionários. Mas que vem dia a dia e sistematicamente ampliando suas vitórias. Eles estão infiltrados no sistema. Estes inimigos do banco sufocam iniciativas, liquidam a criatividade das pessoas, afugentam a clientela e desestimulam carreiras... Esta é uma guerra invisível, mas que provoca graves estragos. Eles agem tanto à luz do dia como na calada da noite, sem chamar a atenção...

A arma letal que estes guerrilheiros corporativos escolheram chama-se burocracia. A munição é tão sutil que mal nos damos conta dos seus enormes danos. Há uma gama interminável de fatos aparentemente isolados e desconexos. Mas, dona Jandira, acredite, tudo está orquestrado e sincronizado. Faz parte de um pensamento arquitetado de forma diabólica. Atrasos nos prazos comprometidos, reuniões longas e inúteis, formulários desnecessários, atendimentos lentos, indelicados e deficientes aos clientes são situações que o banco vive a cada momento e que parecem fazer parte natural da operação... Ninguém imagina atribuir estes fatos a uma ação proposital... Mas tudo é parte do mesmo plano que desvendei e que agora me expõe ao perigo.

A senhora deve estar se perguntando como cheguei a esta conclusão. Pois bem. Eu já andava desconfiado há muito tempo que isto ocorria, mas não tinha provas. Até que um dia, resolvi observar a rotina do banco. Vou dar só um exemplo, pois sei que a senhora não tem tempo. É apenas uma gotinha neste mar de burocracia programada que opera incólume diante de nossos olhos despreparados para observá-la... (Aliás, a melhor ferramenta destes agentes desalmados é tirar proveito da ingenuidade e boa fé das pessoas para agir à vontade...).

Entrou no banco um sujeito interessado em abrir uma conta. Trazia um cheque de valor considerável. Eu mesmo vi. Ao tentar entrar no banco, o segurança (provavelmente um dos agentes deste grupo sabotador) quase o despiu por conta de utensílios metalizados que o sujeito carrrega nos bolsos e que o impediram de atravessar a porta rotatória. Saíram dali inocentes canetas, celulares, chaveiros, óculos, até mesmo um cinto com fivela de lata... Logo a seguir, outra agente inimiga, disfarçada de recepcionista, o fez esperar mais de vinte minutos enquanto falava com alguém animadamente pelo telefone. Quando o futuro correntista explicou o que queria, ela, com ar blasé, o inundou de exigências impossíveis e formulários inviáveis, com a firme intenção que ele desistisse. Apesar disso, o sujeito era determinado. Agüentou estoicamente. Mesmo assim, a agente do mal conseguiu impedir que o pretendente a correntista abrisse a conta. Disse que o expediente acabara de se encerrar naquele meio tempo. E que, se ele quisesse, que voltasse no dia seguinte! Ele saiu espumando de raiva. Prometeu nunca mais voltar... Pois bem: pelo sorriso de felicidade estampado no rosto da agente quando o ex-futuro-correntista deu as costas, percebi que ela fizera tudo de propósito...

Este fato, como disse, não é isolado. Estão ocorrendo situações semelhantes a cada minuto, em cada setor deste banco. Eu sou testemunha disto, e por isto temo e eles sabem que eu sei... Pouco a pouco, os pilares desta organização estão sendo minados. Como cupins que comem madeira na calada da noite, eles usam golpes baixos para atingir seus vis propósitos. Um dia, resolvi fazer algo a respeito. Comecei a questionar estes falsos funcionários cada vez que os via agir em detrimento dos interesses da nossa organização. Acho que me expus em demasia. Desde então, minha vida mudou. Eles agora me identificaram e querem acabar comigo... Estão apenas aguardando a hora certa...

Sempre que me aproximo, falam mais baixo. Lançam olhares hostis em minha direção. Por duas vezes, encontrei a pintura do meu carro arranhada. Documentos têm desaparecido da minha mesa de trabalho. O meu computador está sempre travando. Sou sempre boicotado no acesso a informações vitais para o trabalho. O telefone toca e quando atendo não há ninguém no outro lado da linha. Nas reuniões, as decisões são tomadas quando saio da sala. Nunca mais recebi prêmios ou aumentos de salário. A minha conta corrente vive recebendo débitos indevidos. São sinais evidentes de que algo vai acontecer!

Enfim, posso pressentir o fim eminente. Por isto, antes que seja tarde, quero deixar este legado. Existem maneiras simples de me neutralizar, sem derramamento de sangue, com a ajuda da própria burocracia. Por exemplo, eles podem me transferir para uma obscura seção de protocolos ou arquivos. Lá, passarei o resto da minha carreira carimbando documentos que ninguém vai ler e processando microfilmes de cheques emitidos no passado. Ou quem sabe serei desligado do banco sem razão aparente, num destes cortes de pessoal. Seria uma morte burocraticamente natural, que não levantaria suspeitas...

Só espero que meu sacrifício não seja em vão. Que esta carta sirva de alerta para a senhora, dona Jandira, que precisa prevenir a direção do banco... Agora preciso parar de escrever. É tarde da noite. Estou sozinho na minha sala de trabalho, e por duas vezes a luz piscou... Pode ser coincidência, mas estou ouvindo passos no andar de cima. Paranóia? Dificilmente. Como explicar o que está acontecendo que não só eu, mas também a senhora e tanta gente convivem diariamente? É tudo organizado. Coisa desta confraria dos burocratas. Um dia, quando eles dominarem o mundo, todos vão me dar razão... Mas aí vai ser tarde demais...

Conto com a senhora (que espero não fazer também parte desta confraria).

Sinceramente,

Eustáquio.