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A cigarra e a formiga, versão executiva

Era uma vez um funcionário público que não gostava de trabalhar. Afinal, pensava ele, para que se matar no serviço, se ao final do mês, o Tesouro sempre paga o salário, haja ou não inflação, com ou sem déficit das contas públicas? Por isto, ele gastava os dias em animadas conversas com seus pares de serviço público nos setores e repartições do Ministério onde estava lotado.

Discutia com colegas sobre as dificuldades de fazer carreira sem contar com apadrinhamento político. Ou avaliava rumores de um próximo – e merecido - ajuste salarial a ponto de ser promulgado. Mas, com voz carregada de preocupação, os servidores também discutiam sobre os perigos da privatização – uma entidade dantesca que, cada vez com mais freqüência e intensidade, aparecia na pauta, ameaçando a felicidade daquela alegre comunidade.

Nestas horas amargas, Tarcísio - era este o nome do nosso funcionário - mudava imediatamente de assunto. "Para que entristecer nossas vidas com preocupações inexistentes?" – falava para o grupo. E, para afugentar o clima pesado que se formava, ele lembrava alguma festa, comício, manifestação pública, ponto facultativo iminente, mudança política. Ou comentava sobre uma saborosa fofoca relacionada à vida particular de uma figura pública ou colega ausente que provocava risos dos presentes e resgatava o humor ameaçado.

Já Romero, ao contrário de Tarcísio, era um sujeito tenso e eternamente ocupado. Vivia às voltas com as pressões e problemas operacionais da multinacional onde trabalhava. Os dois nada tinham em comum. Exceto um dado importantíssimo: estudaram juntos e lá criaram uma grande camaradagem, típica dos que compartilham os bancos universitários.

Tal qual dia e noite, os estilos de vida de cada um dos dois eram contrastantes. De um lado, Tarcísio podia ser encontrado sempre cantarolando e sorrindo para tudo e todos. Contava com a generosidade do contribuinte, que docilmente pagava tributos sem exigir contrapartidas em serviços. Do outro, Romero atravessava os dias à beira de colapsos nervosos, pressionado por contínuas reengenharias corporativas, otimização de recursos, cortes de pessoal e redução de custos. Por trás, estava o pragmatismo mesquinho de anônimos acionistas da empresa, ambiciosos indivíduos que buscavam resultados financeiros das sociedades anônimas ao preço do sacrifício pessoal dos igualmente anônimos funcionários.

De vez em quando, os dois se cruzavam em aeroportos ou lobbies de hotéis de luxo. Nestas ocasiões, Tarcísio caçoava do sempre exaurido ex-colega, agora transformado num importante executivo. "Viva a vida, meu amigo, antes que seja tarde, pois é uma só! De que adianta tanta luta e sacrifício se um dia todos vamos inevitavelmente parar debaixo da terra? " – comentava. A seguir, embarcava numa viagem internacional em primeira classe ou dirigia-se a um restaurante de luxo, sob os auspícios de algum lobista ou assessor de relações governamentais de uma empresa em busca da aprovação de um projeto, aceleração de um processo ou simplesmente interessado em ampliar o relacionamento com o burocrata estatal. Romero nada dizia, limitando-se a balançar a cabeça com resignação.

Um dia, como o inverno, veio a privatização. De repente, o país, governo e sociedade, pareciam querer se desfazer, de uma só vez, do excesso de bagagem que acumulara ao longo de anos em suas estruturas. A imprensa e os políticos clamavam pelo fim da inoperância estatal, dispensando a todo o seu corpo operacional – competentes e incompetentes – o mesmo tratamento, nivelando a todos por baixo. Como se fossem uma coisa só, todos os setores eram rotulados como estruturas inchadas, disfuncionais e preguiçosas. Empregados públicos buscavam sustentação política para a sua causa impossível. Em vão. O determinismo da globalização, a luta das economias por um espaço ao sol, a competitividade gerada pela conquista de novos mercados falou mais alto.

Foi assim que Tarcísio, quando menos esperava, se viu trabalhando do outro lado da cerca. Como um predador natural, seu comportamento adquirido em estatal, acostumado a absorver estilos obsoletos e hábitos monopolistas, se encarregou de devorar sua carreira na iniciativa privada. Tempos depois, era desligado da organização e se via abandonado à própria sorte.

A primeira coisa que ocorreu foi procurar os patrocinadores de sua boa vida de sua vida pregressa, nos tempos de estatal. Mas, mundo ingrato, cada um a seu modo, todos se recusaram a acolhê-lo. Sequer o convidaram para um almoço num reles botequim. Tarcísio, agora, fora da estrutura de mando e comando da instituição pública que servira no passado, não mais os interessava.

Desesperado,engoliu em seco o orgulho e procurou Romero. Não foi fácil atravessar a estrutura de segurança e isolamento criada em torno do amigo, já então presidente da multinacional. Tal dificuldade de acesso, materializada por recepcionistas, secretárias e formulários, trouxe a Tarcísio uma sensação de melancolia pois o fazia recordar de seus melhores tempos de estatal.

Afinal, conseguiu aproximar-se de Romero. O presidente, apesar de ocupadíssimo, o escutou até o final. É preciso dizer que Tarcísio se preparara para ouvir algum tipo de sermão sobre seu despreparo para o futuro em troca do prazer fugaz. E que, enquanto o amigo se divertia, Romero gastara os melhores anos da vida trabalhando e coisa e tal. Mas, diferente da fábula, onde a formiga diz para a cigarra que esta passou a vida cantando, e que agora dance, batendo-lhe a seguir a porta na cara, esta história tem um final mais que feliz.

Qual não foi a surpresa quando Romero, abandonando seu pedestal, acolheu o companheiro em seus braços e na organização. Contratou o amigo como consultor, e com belíssimos honorários, diga-se de passagem. E por três razões. Primeiro, porque eram velhos companheiros e existia entre eles um código de honra acima das organizações. Segundo, porque o mundo dá voltas e nunca se pode prever o dia de amanhã. E terceiro, porque esta história não é sobre bichos, mas sobre homens, ora bolas!