Livro
O pródigo dos cartões corporativos
Você sabe o que significa Prodicard? Ok, vamos por partes. Primeiro confirme o seguinte: se você se chamasse Geraldo Gerúndio, com certeza ou mudava de nome ou acabava se auto-apelidando com as suas próprias iniciais, como GG, por exemplo. Ah, você já viu esta situação acontecer com outras pessoas em outras circunstâncias? Bom, então saiba que foi assim mesmol que aconteceu este sujeito de quem vamos falar, o GG. Ele até poderia passar como um destes personagens desapercebidos do mundo empresarial se não fosse um comportamento peculiar. Fato que até o tornou folclórico junto à comunidade de negócios.
GG ostentava o titulo pomposo de Diretor de Relações Institucionais e Comunitárias (seja lá o que isto significa) de uma importante empresa que é melhor a gente não dar o nome. Até por conta do seu cargo, ele fazia questão de pagar tudo, claro que como pessoa jurídica. Adotava de forma paternal contas de almoços, jantares, happy hours, despedidas, comemorações e homenagens de qualquer espécie. Tudo o que se pudesse qualificar como “despesa de representação” em qualquer evento externo onde GG estivesse presente, tinha destino certo: o dinheiro plástico deste nosso mecenas corporativo.
Não importava o grande número de participantes. Nem o valor exorbitante da conta. Muito menos o inexistente grau de interesse do evento para os objetivos finais do negócio de sua empresa. A rotina era a mesma. Primeiro, agarrava a conta das mãos do garçom com a avidez de um faminto (como se algum louco fosse intercepta-lo com um ato intempestivo…). A seguir, puxava o cartão de crédito com velocidade de dar inveja a mocinho de bang-bang em dia de duelo. E a seguir, olhando os demais presentes com uma postura magnânima, fazia-se acompanhar da indefectível frase, quase bordão: “deixa esta aí comigo, pois a viúva paga”.
Viúva, no caso, era a organização a que GG pertencia. Por misteriosos meandros burocráticos que nem a própria burocracia consegue explicar, nunca se questionaram quaisquer valores apresentados no final do mês. Afinal, despesas de representação são despesas de representação e estão acima do bem e do mal. Além disso, por serem legitimamente dedutíveis de impostos, acabavam sendo aceitas pela área financeira e classificadas neste vale-tudo contábil que se convencionou chamar de “despesas operacionais”.
Assim, não se sabe bem se por costume ou omissão, GG fez história em seus 25 anos de atividades. Se passou incólume nos meandros organizacionais com os seus hábitos caros, tal indiferença não ocorreu no mundo externo que freqüentou. Sempre foi reconhecido, amado e quase idolatrado, principalmente por todos os bicões corporativos da praça (e, acredite, há milhares deles por aí!) ou por aqueles que tiveram o prazer de passar pela sua frente.
Mas, voltando à questão inicial, de onde vem este nome prodicard? Digamos que o tempo, melhor que qualquer juiz, reconhece méritos e defeitos. Não se sabe a origem do nome, mas o fato é que um dia GG ganhou tal aposto ao apelido. Não se sabe se prodicard foi uma homenagem ou sacanagem. Isto na verdade não importa. O fato é que a criativa combinação das palavras pródigo e o cartão deu certo. Dali para a frente nunca mais foi chamado de outra forma. O que, por sinal, sempre foi aceito por GG como uma forma carinhosa e lisonjeira de reconhecimento público de suas nobres atitudes.
GG, o prodicard, ficou famoso pelas suas histórias. Como o dia em que chegou a uma mesa de restaurante onde uma dezena de comensais (que conhecia superficialmente) estavam terminando uma refeição. Um deles pediu a conta, mas, para sua surpresa, o garçom informou que não se preocupasse, pois o senhor ali na ponta (e indicou nosso amigo) já havia absorvido a pendência. “Com os cumprimentos da viúva”- acrescentou ele, com um sorriso filantrópico que só ele conseguia produzir, enquanto empunhava o inseparável cartão corporativo. Com uma única canetada, assumiu o valor que nem sequer chegou a conferir.
Há também a conta que ele pagou por engano e que pertencia à mesa do lado. Ao ser informado do erro, o prodicard nem pestanejou: manteve o seu beau geste, assumindo com categoria o custo alheio. Houve a ocasião em que uma conta foi entregue a ele duas vezes, mas sendo apesar disto duplamente liquidada. É que GG não achou conveniente expor a falha do garçom à execração pública, preferindo calar-se a ter que humilhar aquele servil servidor. Além disso, pensava, quem pagava mesmo era a viúva…
É preciso explicar que GG não era nenhum idiota irresponsável. Tratava-se apenas de um sujeito de bom coração, com bons amigos e uma ótima linha de crédito não-pessoal – como tantos outros que andam por aí. Ele sabia como ninguém cativar pessoas. Basta dizer que sua agenda estava sempre repleta de convites – quase sempre, é verdade, para eventos onde sua arma de plástico tinha reais potenciais de vir a ser usada…Na realidade, GG, o prodicard, pertencia a uma escola de comportamento onde a atitude elegante de pagar uma conta sempre valeu muito mais que mil filés consumidos. O seu amor pelas despesas de terceiros abatidas pelo seu cartão de crédito corporativo chegava às raias de uma quase-religião.
Infelizmente, como se poderia antecipar, esta história teve um final não muito feliz. Não só para GG, mas principalmente para as empresas de cartão de crédito. Um dia, bateu às portas uma tal da globalização, que imprimiu um ritmo de competitividade internacional nunca dantes visto por aqueles lados… Custos que antes vinham sendo docemente repassados para consumidores tornaram-se alvo de verdadeiras inquisições financeiras – por sua vez demandas por um tal de mercado.
Nesta onda, o cargo ocupado por GG, o prodicard foi extinto. Uma auditoria independente descobriu ser possível à sua empresa vender produtos e serviços sem depender de políticas de representação tão generosas. Ao nosso herói foi oferecido um destes pacotes de aposentadoria suficientes para viver dias de ócio e prazer sem precisar nunca mais voltar à labuta. Para sorte dele, a mulher, que mandava em casa, assumiu o controle das finanças familiares, pois conhecia a fama de prodigalidade do marido.
Quanto a GG, lamentavelmente nunca mais foi convidado para qualquer regabofe corporativo. Sequer teve ao menos um sanduíche do McDonalds pago por qualquer um. Aprendeu a consolar-se numa confortável poltrona de sua casa, admirando um quadro que mandara pendurar na parede. Nele, via emoldurados os seus ex-cartões de crédito corporativo (todos com validades vencidas). Como se fossem troféus conquistados, sonhava acordado enquanto olhava aqueles símbolos de tempos que se foram. E que ele sabia, mais que ninguém, que nunca mais iriam voltar.