Livro
O BUFÃO CORPORATIVO
"… No mundo empresarial, algumas companhias experimentaram o conceito do "bufão corporativo", indivíduo que é empregado numa posição privilegiada para fazer o que os bobos da corte faziam antigamente para os reis – dizer o indizível, alfinetar a pompa, abater vacas sagradas, fazer perguntas canhestras. Em resumo, divertir. (…) Além disso, o bufão não faz parte da estrutura de carreira principal, e tem alguma imunidade contra a demissão…"
(Extraído do Financial Times, artigo "Riso e Diversão beneficiam empresas")
DE: Vicente Eduardo Carvalho Mendes – Assistente Sênior
PARA: Armando Carvalho Mendes – Presidente
Prezado Dr. Armando,
Estou anexando um texto que li no insuspeito jornal Financial Times sobre a importância da diversão para o aumento da produtividade dos funcionários de uma empresa. Achei que seria de seu interesse já que sei, mais que ninguém, sobre a sua eterna preocupação com o futuro da Carvalho Mendes. Afinal, esta organização já se aproxima da terceira geração de mandatários desde a fundação pelo seu pai, o nosso saudoso Comendador Gustavo Carvalho Mendes.
Justamente pensando no futuro, imagino dois cenários possíveis para a firma: permanecer em mãos dos atuais controladores ou a sua incorporação por uma multinacional do setor, destas que nos ronda quase que em bases diárias, com ofertas crescentemente tentadoras.
Tenho plena convicção de que o seu desejo é o de que a Carvalho Mendes continue com a família. E sou o primeiro a reconhecer a sua legítima busca, visando identificar uma liderança adequada, e que permita a empresa atravessar com segurança os caudalosos rios da globalização, sem ir à pique!
Neste sentido, gostaria de tranqüilizá-lo quanto a este quadro atemorizante. Após muita reflexão, encontrei o nome do sucessor que preenche perfeitamente os desafiantes pré-requisitos para a função diretiva e objetivos buscados. Sem mais delongas, neste instante, ei-lo apresentado aqui: Vic Carvalho Mendes – eu mesmo! A seguir, apresento as razões para esta natural escolha, de forma cartesiana e objetiva - como aliás é do seu gosto e formação de engenheiro:
- Sem dúvida, tenho o melhor currículo. Sem querer valer-me da nossa relação familiar, lembro que estudei ao mesmo tempo em praticamente todas as mais tradicionais escolas, por conta de contínuas de transferências geradas pela minha dificuldade de adaptação. Atribuo esta situação à inveja dos demais colegas, por conta do peso do nome e da posição que herdei. Mas há um lado positivo neste fato: estabeleci o melhor network de relacionamento possível, pois acabei neste troca-troca constante conhecendo as pessoas que interessam! Graças a isto, tenho acesso aos melhores círculos da sociedade. Namorei as moças mais disputadas; disputei os melhores torneios de tênis e cavalguei as melhores éguas; convivi com poderosos, políticos e empresários; saboreei as mais sublimes iguarias em todos os almoços e recepções de importância que ocorreram neste país.
- Se profissionalmente posso dar a impressão de nulidade, devo afirmar, mais uma vez, que os demais empregados da Carvalho Mendes jamais me deram uma oportunidade legítima de mostrar o meu valor. Em todas as ocasiões, eles me boicotaram. Mas prometo que não buscarei, como futuro mandatário da empresa, qualquer forma de retaliação. Apenas, novamente, atribuo esta situação à inveja por conta do peso do nome e da posição que herdei. Infelizmente estes maus colegas vivem criando um elenco de dificuldades inerentes àqueles que disputam posições de destaque no acirrado ambiente de trabalho que vivemos.
- O fato de ocupar a função de Assessor Sênior, um cargo de difícil definição de atribuições, justamente por isto carrego a vantagem de trafegar sem resistências por toda a malha funcional da organização sem chamar a atenção. Portanto, após anos de atuação imperceptível em reuniões, conheço melhor que ninguém as operações, processos e pessoas. A falta de contribuição que dei ao negócio até hoje será plenamente compensada pela visão completa e profunda que adquiri da empresa. Certamente estes fatores vão me permitir uma vantagem competitiva que agregará valor ao comando, própria de quem como eu viveu uma posição privilegiada, lúcida e afinada da firma.
- Agora, falemos do mais importante, que são os meus traços de personalidade. Sempre fui visto como um playboy, um inconseqüente, um grã-fino irresponsável que apenas trabalhava na Carvalho Mendes por conta do nome (mais uma vez, coisa dos invejosos…). Diziam que eu passava os dias contando piadas infames. Ou que tecia comentários levianos. Também falavam da minha postura zombeteira. E das minhas ironias inclementes. E dos meus sarcasmos incólumes, que não poupavam momentos, situações ou pessoas.
Pois bem: o artigo do Financial Times em anexo me redime destas acusações irresponsáveis. E mais: demonstram que ao invés de um problema, a empresa sempre contou com a lealdade exemplar e a dedicação canina de um recurso de inestimável valor. Agora que comprovado pela experiência empresarial internacional, o que vão dizer os críticos? Portanto, não há mais porque buscar talentos fora de casa.
Diante de argumentos de tal monta - e que não são os únicos! - Dr. Armando, creio que de forma sintética reuni as condições para apóia-lo na sua decisão de manter a empresa em família e escolher o seu melhor sucessor.
Se, apesar disto, ainda pairarem dúvidas, lembro mais um detalhe que possivelmente o fará reconsiderar qualquer inquietação. Afinal, sou seu filho único, não é papai?
Vic.