Livro
O executivo bonachão
Valdomiro - ou Miro, como sempre foi conhecido - era o que se pode chamar de um grande sujeito. Simpático, sorridente, amigo, não havia quem não gostasse dele. Era uma unanimidade. Conquistava homens, mulheres, crianças e animais de pequeno porte com seu jeito carinhoso de velho camarada, quase irmão.
Miro era uma variação humana do chinelo velho, que pode não ser o melhor, mas traz conforto e sensação de intimidade e do qual a gente dificilmente se desfaz. A sua estratégia de relacionamento era entrar de forma natural no mundo das pessoas e um dia, sem se saber como, tornar-se indispensável e parte inerente de suas vidas.
Educou-se nos piores colégios, pois estudos jamais o interessaram. Preferia o que, ainda precocemente, chamava de "o outro lado da vida". Enquanto os colegas passavam noites estudando, ele cuidava do prazer e do lazer. Podia ser encontrado nos lugares da moda bebendo, rindo... Mas isto nunca foi um empecilho para sua passagem pelos bancos escolares. Sempre havia um colega disposto a ajudá-lo a superar o despreparo diante das barreiras acadêmicas, mesmo às custos de riscos pessoais. Para que Miro se saísse bem nas provas, valia tudo, até mesmo os meios ilegais.
Apesar da inapetência de Miro para os livros didáticos, ele era disputadíssimo pelos colegas. Todos o queriam fazendo parte dos grupos de trabalho. O seu grau de colaboração era próximo de zero, mas ele tinha a capacidade de criar um clima de harmonia produtiva que tornava a sua companhia um prazer.
Chegou à faculdade de administração (claro que daquelas de segunda linha) aos trancos e barrancos, sempre distribuindo sorrisos e tapinhas nas costas de todos. Como um perfume forte que deixa a marca através do caminho do seu portador, Miro criava um rastro de amigos e admiradores por onde passava. Conseguiu se graduar, sempre atravessando com competência a tênue fronteira entre o despreparo e o oportunismo. Foi o orador da turma, embora evidentemente o discurso que a todos emocionou não tenha sido escrito por ele.
Mal saiu da universidade e seu network já o aguardava do lado de fora com formidáveis ofertas de emprego. Optou por uma multinacional de informática, na época em que as empresas de tecnologia da informação ainda adotavam este estranho nome. Como não poderia deixar de ser, ingressou na área de RH, onde, com seus modos cativantes, mas blasé, conquistou corações e mentes.
A sua capacidade de contemporizar, o jeito agradável de ter sempre tempo para uma conversa ou uma piada, o total clima de liberdade e descontração que era capaz de imprimir por onde andava, o tornaram conhecido e admirado por todos. Com isto, a carreira se acelerou e em pouco tempo tornou-se diretor de sua área.
O que pouca gente percebia é que por trás do comportamento bonachão, disponível e descontraído de Miro, vivia um indivíduo que nutria a mais absoluta indiferença em relação à empresa, seus funcionários e, para falar a verdade, ao futuro de ambos. Ele continuava a ser o que sempre fora: um boa-vida, cuja religião pregava o prazer pessoal e o total desprezo pelo mundo corporativo. Para ele, trabalhar era um mal necessário. E particularmente naquela organização esterilizada, pragmática e desprovida de emoção... Para viver aquilo, só podia estar expiando os piores pecados que ele sequer imaginava ter cometido... Mas, já que estava por lá, queria ao menos se distrair da melhor forma. Por isto, consumia o seu local de trabalho como se um condenado à morte diante do último charuto cubano da face da terra - sem se preocupar com custos, como o produto chegara às suas mãos e a falta de garantia de suprimentos futuros.
Mas, como em outras situações que já vivera, quanto mais indiferente se comportava em relação à organização, melhor Miro era percebido e admirado pela empresa e seus empregados. Por exemplo, ao ignorar documentos, telefonemas e e-mails que se acumulavam sem resposta, nada de grave acontecia. Os assuntos como que por mágica se resolviam por si próprios. Percebeu, mesmo com o seu despreparo profissional, que por trás de tanta baboseira que chegava à sua atenção em doses cavalares, se escondiam seres infelizes que buscavam o reconhecimento de suas façanhas desinteressantes. Era, por assim dizer, uma vã tentativa de pobres mortais em buscar a imortalidade corporativa. A rigor, cada um daqueles inúteis memorandos ou telefonemas nem precisaria existir. E a sua desnecessidade se materializava por si, perante a ação do tempo. Miro sabia que interferir no processo era uma ação inútil que apenas serviria para exacerbar ódios, provocar tensões e amplificar insatisfações.
Mas a reação a esta indiferença planejada era a melhor possível. Ninguém via nele um omisso, mas, ao contrário, um líder que sabia delegar. Era admirado pela sua generosidade em dar a cada subordinado a oportunidade de encontrar por sua própria conta as melhores soluções. Transformara-se num reconhecido motivador de profissionais, que despertava no mais passivo empregado o espírito empreendedor adormecido. É que o ser humano adora ver e ouvir o que quer e não o que ocorre de verdade. Por isto, a partir de certo ponto, diante da mais gritante incompetência ou decisão equivocada de Miro, não o questionavam, mas buscavam na omissão uma causa inteligente que levara à atitude do executivo.
Enfim, Miro tornara-se mito. Verdade seja dita, o sucesso jamais lhe subiu à cabeça. Afinal, o seu modelo de vida triunfara e não havia razão para mudanças de comportamento. Adestrado para suprimir emoções, não se envolvia com a tragédia ou a vitória, o lucro ou o prejuízo, o belo ou o feio, a falência ou a fusão & aquisição, a inteligência ou a burrice. Tudo aquilo era e continuaria a ser inútil e inócuo. E foi com esta visão do mundo e da vida que Miro se aposentou, diante de discursos, soluços e presentinhos de despedida.
Anos depois, no seu enterro, a empresa liberou o quadro funcional para prestar a última homenagem ao grande líder. Foi preciso a interferência das forças policiais para controlar a turba corporativa que se comprimia para dar-lhe adeus e vê-lo partir para um mundo melhor e mais justo.