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O ASPIRADOR FORA-DA-LEI
Quando Adonias decidiu promover de forma inovadora a tradicional linha de aspiradores de pó da multinacional onde era gerente de marketing, estava agindo com a melhor das intenções. Jamais imaginou enfrentar tamanhas dificuldades operacionais que o fizeram se arrepender de ter tantas iniciativas…
A verdade é que ele já vinha pagando por um erro cometido no passado… Fora seu o desastroso plano de lançamento de um novo eletrodoméstico no qual o Presidente da empresa apostara todo o prestígio. Sucesso de vendas em mais de uma dezena de países, era destes produtos “três-em-um”. Combinava batedeira, liquidificador e centrífuga em um único equipamento. Ao ser consultado sobre as possibilidades de desempenho no mercado local, Adonias mostrou-se reticente… Mas, para ficar bem com o Presidente, topou o desafio da comercialização.
Por conta deste compromisso, a empresa investiu pesado na produção e no marketing. Mas a dura realidade foi o completo fracasso das vendas, obrigando a organização a tirar o “três-em-um”do mercado e absorver imensos prejuízos. Adonias só não foi despedido na ocasião porque o próprio Presidente temeu chamar a atenção da Matriz para ele próprio, afinal o principal responsável… Para compensar, como uma espécie de castigo, Adonias recebeu a missão impossível de duplicar em seis meses as vendas da linha de aspiradores de pó. Se conseguisse, manteria o seu emprego. Caso contrário… rua! Esta era uma diabólica fórmula de se livrar do incômodo funcionário incompetente, mas de forma desassociada do fatídico produto…
Aspirador de pó não é não é a coisa mais sexy da face da terra. Quem perde a cabeça por causa de um mero sugador elétrico de poeira? Como promover um equipamento tão óbvio, enfadonho, besta e desprovidos de emoção? Adonias reconhecia que a única possibilidade de sucesso residia na capacidade de quebrar o halo de marasmo que pairava sobre as vendas vegetativas dos aspiradores de pó da empresa. Pensando bem era mais fácil fazer um consumidor trocar uma batedeira de bolo por uma máquina de fritar batatas movida a pilha que fazê-lo comprar um novo aspirador de pó!
Foi quando a agência de publicidade que atendia a conta apresentou uma idéia de promoção brilhante. Encartado numa revista, o leitor encontraria um envelope conectado a uma fita. Sobre o envelope, estaria escrito “puxe a fita e tenha uma grande surpresa”. Ao fazê-lo, duas coisas aconteceriam. A primeira era o envelope se romper e o leitor ser inundado por uma inofensiva, mas perfumada camada de pó branco. A seguir, na parte até então oculta da fita, agora nas mãos do leitor, lia-se o texto “Evite surpresas na limpeza do seu lar. Conte com a nossa linha de aspiradores”.
Todos amaram a idéia. Ela tinha todos os elementos de sucesso. Era original, agressiva e de muito impacto. Ia dar no que falar. Provavelmente ganharia prêmios de criação, comentou o publicitário responsável pelos contatos.
Adonias, naquela fase de sua carreira, não gozava de prestígio suficiente para opinar sobre a proposta. Restringiu-se a seguir a manifestação da maioria. Como nada tinha a perder, aprovou também o projeto. Mas, como último estágio para a implementação, seguindo normas da empresa, precisava do parecer do departamento legal. Seria algo formal, de quem nunca gerara qualquer problema.
Mas, para sua surpresa, os advogados recusaram o projeto. Apontavam riscos, preveniam contra potenciais processos. E se o leitor fosse alérgico a poeira? E se alguém alegasse que suas roupas se estragaram com o pó derramado? Do jeito que estava, foram enfáticos, a campanha era suicídio…
Os publicitários voltaram com a idéia reformulada, agora bem menos “perigosa”. No lugar da poeira, desprenderiam-se pequenas estrelas brilhantes e fosforecentes. Todos adoraram a nova proposta. Exceto, mais uma vez, os advogados. Avisavam sobre os perigos embutidos. E se uma criança engolisse as estrelinhas? Seria o material usado tóxico? E, assim, só aceitavam aprovar se viesse escrito no envelope do anúncio o seguinte: “Atenção: este envelope contém material que pode causar alergia. Só deve ser aberto por pessoas maiores de 18 anos. A empresa não se responsabiliza por danos causados”
Diante daquele parecer radical, Adonias aposentou a sugestão da agência. Resolveu adotar uma campanha nos moldes mais tradicionais, onde aparecia uma atriz da moda esfregava o eletrodoméstico num tapete, feliz da vida, como se tivesse acabado de atingir o nirvana.
Mais uma vez, os advogados criaram empecilhos. Afinal, dizia o extenso relatório que produziram, Adonias chamara a atenção para o risco de se comercializar aspiradores de pó naquela empresa. Pensando bem, aquele era um produto perigoso e sujeito a todos os tipos de riscos, do ponto de vista legal. Criancinhas poderiam ser eletrocutadas ao manusearem indevidamente o aparelho. Jóias ou objetos (e até animais!) de pequeno porte poderiam ser tragados pelos modelos mais possantes, trazendo as mais devastadoras conseqüências. Sem falar em eventuais explosões caseiras por mau funcionamento ou falhas dos operadores. Diante destes fatos, recomendava-se low profile na divulgação, evitando exposição excessiva do produto para não chamar a atenção de autoridades, grupos de defesa do consumidor ou associações de produtos concorrentes aos aspiradores , como a industria de vassouras e espanadores, por exemplo…
Assim, Adonias infelizmente não atingiu a quota mínima de vendas estabelecida. Foi dispensado do emprego. Mas, tempos depois, abriu um negócio de vendas pela internet. Logo a seguir vendeu seu site para um portal que por sua vez se fundiu com outro maior e foi absorvido por outro que faliu… Quanto à multinacional, continua a existir até hoje. Só que se desfez da linha de aspiradores de pó, aconselhada pelos advogados e seguindo a sua rígida política corporativa que a impede de comercializar produtos ilegais ou percebidos como tal.