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A AMANTE FUNCIONAL

Até se divorciarem, Leônidas e Margarida pareciam ter nascido um para o outro. Tanto que se casaram e jamais brigaram nos vinte e tantos anos que viveram juntos. Graças à harmonia que se estabeleceu no relacionamento, Leônidas conseguiu se concentrar na sua carreira enquanto Margarida cuidava dos clássicos três Cs do lar – Casa, Criança e Criada. Foi assim que prosperaram em todas as frentes, culminando em ele se tornar Presidente de uma multinacional escandinava e ela uma respeitada senhora da sociedade. Nas altas rodas, ela ficou conhecida como a “mulher inha”: bonitinha, boazinha, engraçadinha, esforçadinha... Sempre sorrindo, nem assim as fotos das colunas sociais deixaram de registrar sem piedade a decadência física da outrora graciosa morena - mas de uns tempos para cá uma matrona alourada artificialmente.  

Um observador atento poderia no máximo perceber quase invisíveis micro-indicadores de que as coisas poderiam estar desandando nas relações daquele ex-par perfeito. Uns três anos antes do triste desfecho do notório caso de amor, a apatia de Leônidas ao lado da esposa em eventos públicos, agora, diante dos fatos, até chamaria a atenção. Mas a este estado de torpor, ao qual se atribuía o cansaço do executivo após intensa labuta atrás das escrivaninhas, explicava razoavelmente as não raras ocasiões em que adormecia durante espetáculos ou recepções. Por outro lado, Margarida assumira, com a meia idade, junto com uma conversa desinteressante e voltada para o fútil, uma gargalhada histérica irritante que era por ela exposta em todas as circunstâncias, sob qualquer pretexto.  

No comportamento externo do par, tirando estes dois fatos sem gravidade, nada parecia comprometer o futuro quase óbvio de felicidade eterna conjugal. Enfim, se alguém concluísse que o matrimônio dos dois pombinhos estava em crise seria taxado de louco ou mau caráter.  

Por isto, foi um terrível choque para todos – empregados, amigos, socialites - quando o casamento acabou. Sem avisos ou sinais aparentes, o fim chegou de forma traiçoeira, mas fatal, na calada da noite. 

Pois era justamente o silêncio que denunciava a destruição iminente. Leônidas trabalhava de sol a sol sem reclamar. Era um despojado. Detestava transferir para os outros os seus afazeres e responsabilidade. Depois que dava um beijo na testa da mulher semi-adormecida, saia ainda de madrugada de casa para desaparecer nos meandros da burocracia. Não perturbava sequer a cozinheira da casa, pois fazia seu próprio café da manhã. Quando adoecia, tratava-se sozinho. Ao viajar, arrumava suas próprias malas. Só faltava mesmo lavar e passar a roupa, o que provavelmente ele teria feito se não fosse a mulher exigir que o trabalho fosse executado pelos serviçais (ela tinha vocação para grã-fina ainda recém-casada.  

Pouco a pouco, mesmo sem querer, Leônidas aprendeu a viver em dois mundos diferentes: o do trabalho e o da casa. Criou uma muralha invisível que o impedia de transferir para o lar os assuntos corporativos. Igualmente jamais discutiu temas domésticos no ambiente empresarial. De método de vida, tornou-se dogma. Assim, pouquíssimos conheciam detalhes sobre sua vida particular. A falta de comunicação entre os dois mundos combinada ao fator tempo fez não só com que os lados se isolassem, mas que também se tornassem incompatíveis.  

As conversas entre o casal, já raras, tornaram-se impossíveis. Não havia qualquer informação a trocar entre eles. Margarida passou a se dedicar a obras filantrópicas e relacionamento social, entre um cabeleireiro e um fitness center. Leônidas, quando em casa, pouco falava. Dedicava-se a atualizações em revistas de negócios, literatura técnica e boletins em inglês da CNN. Em comum, apenas os famosos “Cs” da mulher, agora em dobro – duas casas, duas criadas e dois filhos. 

A emoção já era uma carta fora do baralho no coração de Leônidas quando surgiu Maria Amália, a secretária executiva contratada para apoiá-lo na Presidência. O que o atraiu nela definitivamente não foi a beleza. Pelo contrário. Maltratada pelos recursos financeiros limitados, ela era apenas uma simpática magrinha, cabelo ruinzinho, dentes duvidosos, corpo das que não puderam se deixar modelar pelas academias. Apesar de tudo, Maria Amália tinha carisma, juventude e garra. Parecia transmitir pelos olhos, palavras e gestos uma energia típica dos que se agarram nas tábuas de salvação das empresas, lutando por seu lugar ao sol.  

Pouco a pouco, formou-se uma forte cumplicidade entre chefe e secretária. Ela complementava suas ações, antecipava seus desejos, suavizava seus rompantes, preocupava-se com sua saúde, somava forças nas horas de decisões, fazia companhia à sua solidão executiva, lembrava de sua alimentação nos momentos de sobrecarga de trabalho, liberava seu tempo e paciência dos chatos e inoportunos, valorizava sua atenção para o prioritário e o poupava do supérfluo. Enfim, Maria Amália tornou-se a melhor - e única! - intérprete e executora eficaz das necessidades, ansiedades e expectativas de Leônidas. Enfim, de amada secretária, ela tornou-se amada e amante mulher.  

Cada vez o executivo sentia maior identidade com a vida corporativa e menor interesse no mundo caseiro. Quando precisava discutir um negócio importante, a pauta de uma reunião, uma decisão complexa, chamava Maria Amália. E ela jamais o decepcionava, como mulher, como amiga, como secretária. Sempre tão disponível, carinhosa, atenta, amorosa, discreta, companheira, eficiente... 

Através de algum furo do inconsciente ou fio desencapado dos sentimentos, Leônidas foi-se deixando seduzir por uma inexplicável ternura por Maria Amália. Ela o comovia, o tornava um homem melhor. Quando a via, seu coração se enternecia, ficava apertado, pegava fogo... O que era aquilo? 

Enquanto isto, a distância entre ele e Margarida se avantajava. Falavam línguas diferentes, pertenciam a universos distintos. Eram estranhos vivendo a solidão a dois, fazendo-se companhia em seus inúteis vazios existenciais.  

Foi tudo rápido, precipitado, intuitivo. Um dia - não importam os detalhes -Leônidas largou a mulher e se uniu a Maria Amália. Era tão óbvio, ele agora via com clareza funcional... Por quê separara os dois mundos por tanto tempo? Por que demorara tanto para fazer da empresa o seu melhor lar, doce lar para viver?