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O Agregado Corporativo

“Chamem o Professor Ordonez. Só ele pode resolver isto”. Esta frase até já fazia parte do cotidiano da empresa. Surgira nos tempos do doutor Alberico, o fundador. Misteriosamente o colaborador da velha administração sobrevivera, mesmo após a venda da organização à multinacional - isto há mais de duas décadas.  

Enquanto Alberico já se fora da empresa e até deste mundo, o Professor Ordonez, o conselheiro, ali estava, firme e forte, extemporâneo e anacrônico. Como um baluarte da resistência da velha administração, teimava em existir – sobrepondo-se à excelência funcional pregadas arrogantemente pela nova ordem corporativa. Nenhum processo ou prática do tempo do doutor Alberico se qualificara ou conseguira superar as trazidas pela colonização no poder. E nem havia porque. Afinal, os atuais donos dos negócios adotavam procedimentos universalmente testados e aprovados nos mais distantes territórios onde a multinacional mantinha operações… Por quê ali deveria ser diferente?

 No entanto, o professor Ordonez era uma exceção. Como uma verdadeira lenda viva, sabia-se muito pouco sobre ele. Por exemplo, de onde surgira aquele título, disfuncional e obsoleto, que contrastava com modelo de relacionamento informal pregado pelas melhores práticas organizacionais. O velho contava, ainda que vagamente, ter se formado numa faculdade do interior de Minas Gerais que nem mais existia. O fato é que ninguém jamais se propôs a ir até o local para confirmar e a sua versão prevaleceu e tornou-se a oficial. Assim, o aposto de professor agregado ao nome e o tratamento honorífico se mantiveram - como um piano que um dia chega a uma casa e lá permanece, resistindo às reformas e mudanças…

 Ele era o conselheiro, ou melhor, o palpiteiro de plantão, o sabe-tudo… Metia seu nariz em qualquer assunto. Sua agenda nunca tinha registros nem compromissos formais. Contava sempre com ampla liberdade para ir e vir, dentro e fora da empresa e até do país, sem dar maiores explicações a ninguém. Jamais fora questionado nem no comportamento nem nas despesas. Estas eram reembolsadas imediatamente, sob vista grossa da área financeira, por mais esdrúxulas e incompatíveis com as regras aplicadas aos demais mortais que pudessem vir a ser. O Professor Ordonez era o soberano da exceção. Para ele, não existiam segredos ou limites nas premissas da empresa. Abria portas e gavetas trancadas para a maioria com enorme desenvoltura. Participava, a bel prazer, das reuniões mais confidenciais ou de decisões mais estratégicas, mesmo sem ser formalmente convidado. À sua palavra, por mais paradoxal e incongruente, não havia opositores. Sua decisão era final, temida, respeitada e jamais questionada!

 O tempo só fez somar prestígio e respeito reverencial ao professor, ao fazê-lo envelhecer com dignidade física. Fatores que contribuíam para a esta impressão eram a sua vasta cabeleira branca, obedientemente penteada para trás e fixada com a ajuda de um poderoso gel. Ou então o seu olhar penetrante e assustador, desproporcional ao rosto, ampliado graças a poderosas e grossas lentes de miopia protegidas por um soturno óculos negro e pesado. Ou, ainda, a sua boca fechada, mas sempre atenta, pronta para disparar contra a vítima um comentário que poderia representar a vida ou morte corporativa de um interlocutor.

 Os hábitos reclusos, o passado pouco conhecido, a discrição e sisudez contribuíam para tornar o professor Ordonez um mito na corporação – e até fora dela! Por inércia ou fama dos atos, realidade ou ficcção, o fato é poucos tinham coragem de enfrentar suas opiniões, comentários e conclusões. Corria a história de um ex-presidente, nomeado pela Matriz e que chegara à subsidiária com carta branca, mas que perdera o cargo alguns meses após enfrentar o conselheiro. Por via das dúvidas, nem mesmo o atual CEO batia de frente com ele. Tratava de manter uma relação cordial e respeitosa, sendo o primeiro a chamar o professor a participar e ratificar as decisões de importância.

 A favor do Professor, é preciso destacar, havia a sua dedicação cega e o passado de valiosos serviços prestados à empresa. Nos seus padrões comportamentais antiquados, o compromisso inabalável com a empresa era o que valia, muito mais que a carreira. A devoção não enfrentava limites de intensidade ou tempo. Estava 24 horas a postos - disponível e atuante – dando-se de corpo e alma aos interesses corporativos – embora a interpretação do que isto significava era só sua, pessoal e não compartilhada. Afinal, sacrificara-se pela organização. Não tinha família, nem amigos, nem lazer. Era a empresa e ponto final. Os dias mais tristes de sua vida eram as férias. Para ele não havia feriado nem fim de semana.

 Em troca da vida pessoal – e isto não era pedir muito – exigia obediência cega e aceitação de seus mandamentos, mas sempre travestidos de conselhos. Ai daqueles que o enfrentasse. Críticas construtivas eram interpretadas por ele como afrontamentos e tomadas como ofensas pessoais. Era capaz de mover céus e terras para se vingar de quem tivesse a audácia de expor suas recomendações (prontas, acabadas e inquestionáveis) à avaliação pública.

 Com o professor Ordenez, acontecia um fato curioso que só quem vive nas empresas entende. O simples ato de conviver tantos anos dentro dos muros corporativos acaba criando uma capacidade de sobrevivência muito parecida a dos animais nas selvas. O verdadeiro habitante do mundo organizacional tem um instinto aguçado. Aprende não apenas a farejar o perigo, mas a escapar dele.

 Também com o nosso conselheiro não foi diferente. O passar dos anos o transformou num formidável exemplar de bicho corporativo, destes que sabem rapidamente identificar problemas, conhecer atalhos e fugir para santuários que garantam sobrevida não só para ele, mas para também para os seguidores. Aos portadores desta voz da experiência, acima da monótona e repetitiva evolução de políticas e tecnologias, convencionou-se chamar, desde as mais priscas eras, de conselheiro. Sob este prisma, Ordonez nada mais era que um arguto observador do universo empresarial e que aprendera a transformar percepções em meio de vida. O resto foi adicionar ao seu comportamento uma pitada de extravagância e de pirotecnia, coisa de mágicos e ilusionistas, usada para ludibriar espectadores… 

Mas na vida nada é eterno. Da mesma forma que mulheres um dia perdem a beleza, magos perdem dotes sobrenaturais, mesmo que sejam poderosos executivos de multinacionais… Um dia, o professor foi informado que a saúde da empresa em que atuava estava gravemente comprometida. Os médicos corporativos, também conhecidos pela alcunha de consultores, foram claros: a firma estava com os dias contados.

 Nada de errado com a operação em si. Fora apenas o negócio que se extinguira. Morrera de velho e maduro. Como ocorreu com a indústria de mata-borrão, das luvas, dos chapéus e galochas, da professora de boas maneiras, entre tantas outras… A evolução da humanidade acabara com a necessidade do core business da empresa - para usar uma expressão dos consultores. E mais, dizia o relatório preparado pelos sábios: a internet eliminara a intermediação deste elo na cadeia do processo. Nele, a empresa fizera o seu ganha-pão e agora, por causa disto, comprometera irremediavelmente o futuro...

 O mesmo mecanismo interno que fizera o Professor Ordonez ter a sensação de existência eterna agora se voltava contra ele. Como não percebera que isto estava acontecendo, não se preparando devidamente? E agora, o que fazer de sua vida, programada para ter na empresa a sua única razão de ser? Onde cobrar a indenização pelos anos não vividos e o mundo externo não construído?

 Foi quando veio o grande discernimento que salvou sua vida e o tornou uma criatura das mais felizes que se tem notícia. Ao fazer a analogia com os animais selvagens, o velho bicho corporativo lembrou-se que longe das selvas eles contam com duas coisas: zoológicos e circos. As pessoas pagam para ver feras que não circulam livremente pelas cidades.

 E qual era o zoológico ou circo que um ex-animal de empresas poderia habitar? Resposta fácil! E assim foi. Quando se desligou da empresa, o Professor Ordonez abriu duas frentes. Para o público do zoológico, escreveu um livro contando sua experiência e dando conselhos aos interessados em fazer carreira - e que rapidamente se tornou um bestseller. Para os que gostavam de circo, passou a oferecer palestras, onde se apresentava como keynote speaker. Com discursos óbvios, mas que todos entendiam, e piadinhas pré-testadas, e cobrando no mínimo 5 mil dólares por evento, ele caiu no gosto popular. Tornou-se sucesso garantido em qualquer reunião corporativa, fossem sonolentos kick-offs anuais até alegres e faceiras festas de dia das secretárias.