Artigos - 2016

New Orleans, renascida das águas
terça-feira, 30 de agosto de 2016

A cidade, berço do jazz, emergiu da catástrofe causada pelo furacão Katrina, que a arrasou totalmente, em 2005. Com arquitetura diferenciada, alegria, boa música, intensa vida noturna e deliciosa gastronomia, a cidade se reinventou e hoje atrai 9,5 milhões de turistas por ano.

O dia 29 de agosto de 2005 ficou marcado como um dos mais tristes da história de New Orleans, nos Estados Unidos. Foi quando a capital do jazz foi atingida em cheio pelo furacão Katrina, considerado o maior destrutivo desastre natural já ocorrido no país.  

Seguiu-se uma inundação que atingiu 80% da cidade, com 300 mil casas destruídas, 200 mil delas submersas em até cinco metros de profundidade. Neste tenebroso cenário, a cidade ficou sem luz, água e esgoto. Até mesmo os demais 20% de New Orleans que não sofreram o impacto direto das águas, onde se localizam o famoso French Quarter e o entorno imediato do rio Mississipi, tiveram estragos causados por um misto de ventos fortes, chuvas, mofo, e um prolongado período sem energia.

O Katrina provocou um prejuízo na região estimado em 250 bilhões de dólares, se somados também os danos de interrupção da indústria, em especial a de petróleo e derivados, e da cana de açúcar. Isto sem falar no turismo, que na época atraía por ano dez milhões de visitantes e trazia uma renda de quase 5 bilhões de dólares.

As maiores perdas não foram materiais. Duas mil pessoas junto com 600 mil animais de estimação morreram no acidente. Além disso, um milhão de moradores ficou desabrigado – 90% com perda total de suas propriedades – e que tiveram que conviver com a falta de segurança e calor infernal.

Diante da terra totalmente arrasada e uma perspectiva desoladora, a população de New Orleans tinha o pretexto para se resignar com a fatalidade, e até abandonar o local à própria sorte. Mas não foi isto que aconteceu. Munidos de um espírito combativo e profundo amor pela cidade, os moradores se recusaram a ceder terreno ao desânimo. Unidos e inspirados como nunca, e apoiados pela solidariedade e voluntários que chegaram de todas as partes, fizeram do Katrina o catalizador que levou não só ao renascimento, mas a própria reinvenção de New Orleans.

Dez anos depois, esta batalha épica tornou-se símbolo da superação do homem sobre a adversidade. “O Katrina forçou a todos que permaneceram a repensar em que tipo de cidade gostaríamos de viver. Percebemos que apenas reconstruí-la não era suficiente. Afinal, aquela era uma oportunidade única de reimaginar a cidade e trabalhar para isto”, revela Kristian Sonnier, Vice-Presidente de Comunicações e Relações Públicas do New Orleans Convention & Visitors Bureau. “Acho que esta decisão acelerou a recuperação e atraiu gente de outros lugares que também quis fazer parte desta metamorfose”, ele conclui.      

Este movimento ocorreu porque New Orleans não é um lugar qualquer. Diferente de qualquer outro destino no mundo, é a mais europeia das cidades norte-americanas. A sua população extremamente diversificada é um feliz resultado de uma combinação única de culturas, entre elas a inglesa, francesa, espanhola, africana, caribenha e própria norte-americana.  Essa mistura criou um incrível mosaico que se reflete na música, gastronomia, cultura e modo de vida, e que se adaptam como luva ao clima ameno e geografia do lugar.

Com uma arquitetura diferenciada, berço do jazz e de uma culinária exclusiva, encanta até o visitante mais mal-humorado pela alegria contagiante dos habitantes, que parecem viver um clima de festa sem fim.  O turismo é vital para a economia, que sofreu gravemente com o Katrina. Em 2014 a cidade recebia 10 milhões de pessoas. No ano seguinte ao desastre, o número de visitantes despencou para 3.7 milhões, ou seja, cerca de um terço de antes. A renda caiu para 2.9 bilhões, quase a metade. 

No caos do desastre, pelo menos havia uma boa notícia. A zona turística, localizada na parte mais alta, onde ficam também os hotéis, não fora muito atingida. “Percebemos que esta era a nossa saída inicial da crise”, explica Kristian Sonnier, ele próprio um dos que perderam o que tinha. Ele conta que a estratégia adotada foi resgatar a toque de caixa a indústria do turismo, enquanto em paralelo a cidade curava as feridas e reconstruía a infraestrutura arruinada.

Uma das primeiras ações neste sentido foi recuperar os milionários estragos causados ao porto, localizado junto ao rio Mississipi e próximo ao golfo do México. Reaberto em apenas uma semana depois da tragédia, além do transporte de carga, resgatou o seu papel de porta de entrada de navios que trazem um milhão de passageiros por ano vindos do Caribe, México e Flórida.   

Outra iniciativa de destaque foi uma campanha para restaurar a imagem de New Orleans para o país e o mundo, como destino ideal para lazer e convenções. Nela, reconhecia-se de forma honesta os problemas enfrentados e já solucionados, mas sempre com o bom humor característico da cidade. Eram mensagens positivas como “a verdadeira alma de cidade é à prova d’água” e “o Aquário daqui é a única área ainda debaixo d’água”. Somem-se a isto ações de relações públicas, como a visita de 700 jornalistas internacionais, que ajudaram a dissipar preocupações de segurança e desinformações que poderiam persistir. Uma das ideias mais criativas foi levar um dos centenários bondes de New Orleans às ruas de grandes centros urbanos, dentro e fora dos Estados Unidos. A exposição recebeu visitação de milhares de turistas potenciais e ganhou ampla cobertura da mídia. 

Quando as coisas pareciam se recuperar, mais uma vez o destino decidiu pregar uma peça em New Orleans. Além de enfrentar um aumento da criminalidade na cidade, um derramamento de 88 mil galões de óleo cru da BP no Golfo do México em 2010, mesmo sem consequências diretas, colocou em risco outra vez a recuperação de imagem. Diante do noticiário negativo, foi feita uma pesquisa que apontou que um terço dos turistas pretendia cancelar suas viagens ao local. Pior: 48% acreditavam que a comida do mar servida nos restaurantes estava contaminada pelo petróleo vazado. Novamente foi necessário arregaçar as mangas e desfazer a percepção equivocada. Campanhas com mensagens tranquilizadoras, como explicar coisas como o local do acidente ficar a 100 milhas, as atividades turísticas não terem sido afetadas, ou que os peixes e frutos do mar haviam sido testados exaustivamente pelas agências federais. Deu certo, e a vinda de turistas voltou a crescer.

Passados dez anos, os resultados demonstram que os esforços se pagaram. O número de visitantes não para de crescer, e já se equipara ao que existia antes do Katrina. Em 2015 New Orleans recebeu 9.8 milhões de pessoas, 6% delas internacionais, e que geraram sete bilhões de dólares, superando o ano anterior. Aliviada e feliz, a cidade festeja também a geração de 84 mil empregos através do turismo. Revitalizada e aperfeiçoada, prepara-se para celebrar o seu tricentenário em 2018.

Depois do Katrina, New Orleans ganhou mais 600 restaurantes, com uma gastronomia incrementada por profissionais de todas as partes que decidiram lá morar. Teatros clássicos foram reabertos e novos locais inaugurados, o que garante mais música ao vivo e performances do que nunca. O jazz está mais vivo do que nunca, com o surgimento de uma nova geração de músicos que não só respeita a anterior, como dá continuidade à tradição. Hotéis existentes foram reformados e novos abertos, a maioria nas áreas turísticas. Parques e áreas verdes que tiveram 90% de sua área inundada foram recuperados e ganharam três vezes mais árvores que antes, em um investimento de um bilhão de dólares. Os tradicionais bondes – os mais antigos em operação contínua do mundo – receberam melhorias linhas estendidas a outros bairros, e atendem 20 milhões de passageiros por ano. As ciclovias se multiplicaram de 6 para 100 milhas. “Existe um coleguismo cívico e orgulho pela cidade que nos mantém unidos para fazer de New Orleans um lugar privilegiado e destino turístico atrativo”, conclui Sonnier.   

A recuperação de New Orleans inspira outras cidades que foram vítimas de desastres naturais ou causados pelos homens. O amor dos seus cidadãos pelo lar, os elevados níveis de engajamento, e a preocupação com a melhoria da comunidade foram a gasolina que alimentou esta resiliência. A experiência demonstra que basta querer - não só para recuperar, mas até superar o que existia antes.  

 

ADENDOS: 

New Orleans: turismo em números

- Emprega 84 mil pessoas

- 1 em cada 7 empregados trabalha em turismo e hospitalidade

- Atrai 9.5 milhões de turistas por ano

- Produz uma renda de 6.8 bilhões de dólares anuais

- Cada dólar gasto em marketing gera 17 dólares em impostos

- Cada um milhão adicional de visitantes rende mais 176 milhões de dólares

 

A recuperação de um ícone

A exemplo do que ocorreu com outros edifícios históricos, o Teatro Orpheum, construido em 1918 para receber shows de vaudeville, por dez anos teve sua parte inferior inundada pela enchente. Até que, por incrível determinação dos cidadãos de New Orleans que se recusaram a desistir dele, foi totalmente restaurado. Reaberto e aprimorado com melhorias técnicas e equipamentos ultramodernos, é agora sede permanente da Orquestra Filarmônica de Lousiana.   

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